Falar muito de uma coisa
significaria sua ausência
ou, pelo menos, a exigência ou a urgência de
sua presença. Isso me parece válido também
para o diálogo inter-religioso. O verdadeiro diálogo
começa quando os interlocutores já não
usam a palavra diálogo; o diálogo se
converte para eles numa segunda natureza, um modo de ser
e de agir que está em si. Dois amigos quando falam,
não pensam nunca que estão dialogando. São
amigos e isso basta. A amizade não significa ser fotocópia
um do outro, pois são diversos por natureza. Somente
os estranhos usam a palavra diálogo para marcar os
limites.
Para mim, o diálogo é uma ontologia divina,
humana e cósmica ao mesmo tempo, que tem um significado
e um papel existencial. A partir desta convicção,
o diálogo não é somente uma necessidade
pragmática para administrar as relações entre
as diversas comunidades e resolver os problemas de uma convivência
em crise; este aspecto é certamente importante, mas
não é justo reduzi-lo a um departamento de
assuntos exteriores, religiosos ou/e políticos. O
diálogo é um modo de ser e de agir que abrange
tudo. Sem o apoio de uma espiritualidade dialogal, que encontra
sua justa expressão na teologia e no pensamento
religioso em geral, o diálogo correria o perigo
de convertir-se numa vitrine diplomática marginal
e superficial.
Partindo desta observação, o diálogo
não é uma atividade entre outras atividades,
senão um tipo de religiosidade entre outros tipos
de religiosidades. Mas, de que tipo de religião e
de religiosidade estamos falando ? Antes de tentar responder
a esta pergunta (talvez com outras perguntas!), comecemos
por analisar o sentido e o papel da religião.
Parto de um pressuposto: o papel da religião é dar-nos
o sentido último do mundo e de nós mesmos,
e dar-nos motivos para escolher e agir à luz desta
acepção. Não sustento que somente a
religião possui o monopólio do significado
e da motivação. Há formas laicas de
pensamento que buscam desafiar ou substituir as formas tradicionais
da religião; podem ser consideradas como pseudo-religiões
ou religiões simplesmente, no sentido amplo do termo,
porque mais ou menos assumem este papel religioso, como geradoras
do significado.
Neste contexto, insisto na unidade dos diversos aspectos
da religião: a intenção e a ação,
a interioridade e a exterioridade, a experiência religiosa
e sua expressão filosófica, teológica,
artística, moral, social, política, etc. Esta
unidade pede um certo equilíbrio e intercâmbio
entre estas dimensões. Um pensamento teológico,
por exemplo, distante da experiência espiritual, corre
o perigo de ser uma linguagem de poder e de domínio.
Podemos nos perguntar justamente:
-
que
tipos de religiosidade permitem um verdadeiro diálogo?
-
Quando é que uma religião, ou um tipo de religiosidade, se converte num obstáculo?
Partindo de minha experiência
e de minha compreensão do papel da religião,
sustento que o principal obstáculo é o egoísmo,
em outras palavras, a rejeição, o medo do outro
e o desejo de dominá-lo, o fechamento nos limites
do ego, e o fechamento na particularidade. Neste sentido
o egoísmo é anti-religioso por definição; é,
simplesmente, satânico. A primeira palavra pronunciada por Iblis (Satanás),
quando Deus lhe perguntou por que havia recusado prostrar-se
diante de Adão, foi: «Eu, Eu sou melhor do
que ele, me criaste do fogo, enquanto que o criaste do barro” .
Alcorão (7: 12). (38:76). O primeiro pecado é o
racismo.
Segundo esta consideração, o papel principal da religião é libertar-nos
do ego individual e do ego coletivo. Fala-se com frequência do primeiro,
mas raramente, do segundo.
Primeiro, porque as religiões condenaram, geralmente, o egoísmo
individual; mas sendo construtoras de comunidade, reforçaram, querendo
ou não, o comunitarismo, ou o que chamamos hoje, o tribalismo planetário.
Quando uma comunidade deixa de ser um espaço de crescimento espiritual
e se converte num absoluto em si mesma, se transforma em uma tribo, numa prisão
para a pessoa.
Segundo, porque o egoísmo coletivo está escondido detrás
de um pesado veu de coletividade no qual a responsabilidade não é muito
clara. O subconsciente coletivo sabe como se defender com argumentos nacionalistas
ou religiosos, sabe como fazer para justificar e enfeitar o seu racismo étnico
ou religioso. O último é frequentemente menos nomeado e , por
conseguinte, menos condenado.
O racismo religioso se converte em «rigor», «fervor» ou «zelo»,
segundo alguns. Em certos ambientes teológicos se chama «exclusivismo» ou «tradicionalismo».
Nas sociedades antigas, às vezes é tolerado, como forma de orgulho
tradicionalista e conservador, um certo exclusivismo teórico que não
se traduz necessariamente em violência.
Nada está garantido. A experiência histórica nos ensina que
este exclusivismo, dito «moderado», é o que contém um
potencial no qual nasce o exclusivismo explosivo. A passagem entre eles é como
o das intenções às ações, do pronunciamento do
veredito à execução.
Por outro lado, nada está garantido, tampouco, no pluralismo religioso,
porque existe sempre o perigo de ser exclusivistas com os exclusivistas, e cair
assim num círculo vicioso de ação e contra-ação,
do qual não se pode sair. É simplesmente uma contradição.
A luta contra o exclusivismo, como portador do virus da violência nacionalista
ou religiosa, consiste num trabalho teológico, de base, acompanhado
de um longo itineráriopedagógico e educativo. Esta mudança
progressiva e lenta depende também da cultura e das condições
socio-econômicas. Sabemos que a injustiça social, o trabalho, a
fome, la tirania, a tortura, a corrupção, etc., não são
condições favoráveis à abertura e ao diálogo;
ao contrário, são fatores de rebelião e de recusa que tomam,
frequentemente, formas agressivas. Para os oprimidos, esta violência
poderia ser um ato de sobrevivência que, em casos extremos, corre o perigo de
transformá-los em opressores e reproduzir sobre os outros, o que sofreram.
Falando de modo geral, o diálogo inter-religioso não é o
centro das preocupações das pessoas comuns, numa sociedade
que sofre de uma falta perigosa de diálogo em todos os níveis:
entre estado e sociedade, governo e oposição; entre os partidos
políticos, as classes sociais; entre gerações, entre os
membros da família; entre nacionalistas e islamitas, entre os diversos
grupos e tendências religiosas… Diante destes nós,
o diálogo inter-religioso, que se consegue realizar nas universidades
e nos centros de estudo, não interessa às massas famintas de pão
e de liberdade. Neste quadro, o diálogo não faz parte das prioridades
das pessoas.
Tudo isso não está privado de elementos verdadeiros; o aspecto
social e político é predominante no tipo de religiosidade árabe,
por exemplo. Mas isso não justifica a exclusão do diálogo
e o afastamento de sua gente. O diálogo, como tenho falado antes,
não é parcial , senão sistemático, é uma estrutura
mental, um espírito que sopra e age em todas as partes. Uma reforma radical
que não leve em conta a importância do diálogo, no meu parecer,
está destinada ao fracasso.
Pode-se ir do diálogo ecumênico (interno) ao diálogo inter-religioso
porque nos parece que contém menores implicações doutrinárias; é mais
agradável tratar com as pessoas distantes. Introduzir o diálogo
no sistema, é um desafio dificílimo.
Uma das maneiras características que pode ser obstáculo para o
diálogo, é a particularidade cultural. O termo «particularidade» é mais
neutro, comparado com o egoísmo, mas ambas podem impedir a abertura e
a universalidade.
A viagem entre Túnez e Roma dura cerca de uma hora de voo, mas o
que conta verdadeiramente é a viagem mental, que tem suas próprias
dimensões. A geografía mental e imaginária, as casas de
nossos sonhos e pesadelos, influem decisivamente em nosso modo de ser e de nos
comportar. Saltar ou atravessar os muros do imaginário, isto é,
passar do cristão imaginário ao cristão concreto (de toda
maneira, a concretização permanece relativa), é o principal
objetivo –segundo o eu- de nossa peregrinação no coração
do mundo.
O Mediterrâneo une e separa dois mundos diversos. De modo geral (diria,
de modo simplista), os países do Magreb –por sua geografia e sua
história- são mais próximos da cultura ocidental, sobretudo
da elite urbana; mas esta cultura é vista, frequentemente, em sua dimensão
secular, à francesa, na qual o aspecto religioso é descuidado,
por não dizer, suspeitoso. Pelo contrário, para a grande maioria
do povo magrebino, o imaginário clássico do outro (o conquistador
espanhol e o colonizador francês) permaneceu quase intacto. Despois de
um longo caminho de ocidentalização, geralmente forçado
e superficial, a relação com o Ocidente tem permanecido ambígua:
o Ocidente odiado e amado, condenado e glorificado, anti-religioso e cristão
ao mesmo tempo.
A proximidade geográfica ou uma longa estadia no Ocidente não significam
necessariamente um conhecimento profundo e compreensivo do outro; necessita-se que
os preconceitos e a memória estejam fora da crítica. Por isso as
peregrinações culturais são necessárias para preparar
uma nova geração que dialogue. O diálogo, hoje, é um
requisito essencial para ser universal. Viver na pressuposição
da ausência do outro é, agora, impossível.
Outro obstáculo cultural é a amplitude e a riqueza do patrimônio
religioso acumulado durante séculos. As ciências religiosas
constituem um mundo muito amplo. Pode-se consagrar uma vida inteira à obra
de um teólogo ou de um exegeta.
Desde qual parte do cristianismo pode um muçulmano começar seus
estudos, ou vice-versa? Existe uma disciplina de Cristianologia homóloga à de
Islamologia?
Onde se pode estudar tudo isso? As Universidades e os Institutos
pontificios são numerosos, mas, onde podemos começar os estudos
do cristianismo? Mesmo aqueles que têm tempo para começar desde
o início o caminho acadêmico: bacharelado, licenciatura e doutorado,
devem escolher entre: História, Teologia, Estudos Bíblicos, Patrística,
Espiritualidade, Missiologia, Estudos Ecumênicos… e na Teologia,
deve-se escolher entre: Dogmática, Sistemática, Bíblica,
Patrologia, Cristologia, Pneumatologia, Mariologia… Basta abrir um Ordo
de qualquer universidade pontifícia para ver a abundância de opções;
daí nasce uma certa perplexidade no início, que pode ser temporal,
mas que corre o risco, algumas vezes, de causar uma recusa total ou gerar
um conhecimento superficial.
O obstáculo cultural não se limita à multiplicidade das
disciplinas, senão que se manifesta, sobretudo, na diferença de
linguagens e de categorias mentais. O discurso dogmático cristão
não é fácil, sobretudo em sua forma filosófica abstrata.
Como se faz para compreender um tema que parece difícil até para
cristãos? O que me diz a Encarnação, a Trindade, a
Paixão, a Crucifixão, a Redenção…?
Todas estas dificuldades culturais, o egoísmo coletivo e a característica
paranóica se encontram no nível individual, no coração
do ser humano. Aqui a psicologia nos ajuda a encontrar a solução
para os problemas da sociologia e da cultura.
Pode-se comparar minha experiência romana a um homem que sai de um contraste
de luz e entra num quarto; no início não vê nada, e progressivamente
começa a distinguir as coisas, depois percebe que há uma
cadeira sobre a qual pode sentar-se; depois descobre um interruptor
para acender a luz, e assim vê um livro interessante junto à cadeira
e começa a lê-lo… e quiçá abrirá a janela
para descobrir um belíssimo jardim escondido, e assim continuará...
Para mim, a descoberta do cristianismo não é um Ordo universitário,
ou uma bela biblioteca pontifícia. Certamente os livros e os cursos são úteis
e necessários, mas o mais importante é o encontro humano, a amizade. É incrível
e é fascinante encontrar uma pessoa e um continente diverso, uma
língua diversa, uma cultura diversa, uma religião diversa… Tudo
parece diverso e insuperável; porém tudo isso pode não somente ser
comunicado, mas também encontrar-se um no ouro, descobrir uma unidade
transcendente que constitui o núcleo de nossa humanidade e divindade.
Tomar o Evangelho ou o Catecismo da Igreja católica, e dizer “isto é o
cristão”, é um modo restritivo e místico para conhecer
o cristão. Há tanta diversidade e pluralidade no mundo concreto,
não só entre direita e esquerda, conservadores e reformistas, espirituais
e canônicos, heréticos e ortodoxos… mas também
entre pessoa e pessoa, entre um país e outro… e assim se descobre
que atrás da classificação tradicional das religiões
existe outra classificação de religiosidade. Há cristãos
que vivem sua fé de um modo admirável para mim, mais ainda, dão
a mim uma dimensão mais profunda e um horizonte mais amplo para minha
experiência religiosa. Por outro lado, há outros que me fazem lembrar
de alguns muçulmanos polêmicos e exclusivistas. De qualquer modo
se dialoga e se aprende com todos; com os abertos se aprende a abertura, e com
os fechados se aprende a arte da paciência.
Escutar plenamente o otro diferente, mesmo quando fala de un modo abusivo, é um
exame decisivo e um desafio importantíssimo para o homem religioso, que
mostra concretamente que se libertou do egoísmo, seja individual ou coletivo,
que assume, com frecuencia, formas muito desvanecidas por não dizer religiosas.
O próprio diálogo é um modo ascético de purificação
interior. Dialogar é um modo de aprofundar a nossa religiosidade, se compreendemos
a religião como uma descoberta contínua dos rostos de Deus no cosmos no
homem.
Na fraternidade al-Shadhiliyya pedem ao al-murid, o noviço,
que distribua água na mesquita. Em Tunez é assim. Na mesquita al-Zaytuna por
exemplo, pode-se ver pessoas prestigiosas que se inclinam diante da gente para
oferecer uma taça de água fresca nos dias calorosos do verão.
Este pequeno gesto é muito significativo para eliminar o falso orgulho.
O serviço é o coração da missão espiritual
que impede toda tendência imperialista. E não existe serviço
sem a humildade da escuta.
Um dos grandes desafios frente ao diálogo, é a educação.
Como fazer para ensinar objetivamente a religião do outro? Certamente
a objetividade é relativa, quiçá se necessita uma subjetividade
positiva; um cristão não pode apresentar o Islã a seus correligionários,
e é a mesma coisa para um muçulmano que ensina o cristianismo,
sem um mínimo de implicação e compaixão, sem um certo
sentido de adesão ou de identificação parcial, me
atreveria a dizer.
Devemos, também, estar atentos para não generalizar nossas convicções,
sobretudo quando declaramos que as intenções são boas. A
humanidade conheceu tantos tipos de imperialismo humanístico, um imperialismo
soft que pode parecer anti-imperialista, ou melhor, contra a versão hard
do imperialismo. O diálogo inter-religioso não é exceção.
No diálogo inter-religioso se condena, frequentemente, o perigo do relativismo,
isto é, a convicção de que cada um traz consigo a própria
verdade, o que significa que não é uma Verdade absoluta, senão
somente verdades concretas, particulares e privadas.
Não quero defender a filosofía sofísta que anuncia que não
há verdade por trás da retórica. Mas sou consciente
de que nossos contextos, linguagens, culturas… em suma, nossa condição
humana, nos limita. A Verdade existe, portanto, é única, mas é plural
em suas manifestações e conceitualizações. Deus é um
em si mesmo, múltiplo em seus nomes e manifestações. Isso
nos ensina a humildade, a abertura e a caridade hermenêutica. Há uma
grande diferença entre o relativismo, a privatização da
verdade, e a aceitação da natureza pluralista da verdade única.
Esta última atitude estimula o diálogo e o conhecimento recíproco;
pelo contrário, o relativismo chama a fechar-se no recinto da pequena
verdade.
Quisera dar-lhes dois exemplos concretos que podem ser pontos de encontro
e de comunicação, partindo sempre de minha experiência.
Estes dois temas exemplares têm sido para mim muito úteis
e iluminadores para continuar meu caminho dialogal:
O primeiro ponto é a Eucaristia. Parece estranho! Preguntar-se-ão
justamente como um muçulmano que não crê na Crucifixão,
na morte e na Ressurreição de Cristo, nem tampouco em sua
divindade, pode compreender a cenografía eucarística. Há uma
incompatibilidade simbólica e doutrinária que impede a pessoa,
crescida no imaginário islâmico, decifrar o sentido que está por
trás da máscara do símbolo, e assim interagir positivamente
com a liturgia eucarística; os símbolos chegam a ser simplesmente
mudos e absurdos. Vejamos algum exemplo:
Na oração islâmica não se pode comer, no entanto a
Eucaristía está baseada no símbolo do alimento.
O vinho está proibido no Islam, e na Eucaristia, o vinho se converte no
sangue de Jesus Cristo.
Comer a carne de uma pessoa está unido, no simbolismo islâmico,
ao pecado de falar mal dela em sua ausência (al-ghiba).
No plano doutrinal, a maioria dos muçulmanos, salvo algumas exceções,
hoje creem que a Crucifixão é negada categoricamente no
Alcorão; bem, ou se crê no Alcorão ou na Crucifixão.
Diante desta contradição radical, seria melhor evitar o argumento,
considerá-lo como tema tabu ou uma linha vermelha que não
se deve tocar.
Em minha compreeensão da religião e do diálogo, não
existem temas tabus que não devem ser discutidos, sobretudo quando se
dá a confiança e a amizade. Não creio que os temas da Crucifixão
e da Redenção sejam insuperáveis. O veu da história
e da linguagem é o que os torna sensíveis. São verdades «transculturais»,
são verdades existenciais que nos esclarecem e dão sentido à vida.
Os temas do sofrimento, da morte, do renascimento espiritual, da esperança… são
temas humanos universais, não obstante a linguagem simbólica usada
para expressá-los; são vidas e experiências para além
da diversidade cultural. Neste caso, para um muçulmano é possível
compreender a linguagem cristã.
Outras religiões usam diversas linguagens para expressar estas verdades
existenciais. Alguns Sufi usaram o parto de Maria Virgem como modelo de sofrimento
redentor e de um renascer espiritual da verdadeira identidade humana. O nascimento
de Jesus Cristo, o advento natalício, toma aqui uma dimensão pascal
de morte e ressurreição. No Xiismo podem ser encontrados traços
pascais e redentores na morte de al-Husayn, o sobrinho do Profeta Maomé. Às
vezes os místicos usaram uma linguagem erótica para expressar a
comunhão e a união com Deus.
Não é fácil a questão; algumas vezes me parece mais
profunda que uma diferença de categorias mentais; a questão é psíquica,
radica no subconsciente, e nos mecanismos de defesa psíquica e tomam,
com frequência, formas sutis e indiretas.
Recordo que, recém chegado a Roma, resolvi participar na Missa, sem comungar,
mas acompanhando mentalmente, as pessoas para o altar. Em certo momento
me veio a vontade de vomitar; foi uma reação que me surpreendeu,
pois pensava que era mais tolerante! Meu subconsciente reagiu fortemente
e fisicamente por sua conta, sem me pedir nenhuma licença. Assustou-me
a descoberta dos corredores e camadas ocultas na própria
alma, devido a um sentimento estranho de instabilidade e de falta de controle.
A alma estava num estado de rebelião, quiçá esta seja
a loucura. E assim minha nova aventura dialogal, que apenas tinha começado,
corria o perigo de fracassar.
Quiçá havia queimado etapas, minha vontade de ir velozmente até o
fundo da experiência cristã desencadeou dentro de mim os alarmes
psíquicos; a alma também tem os próprios anticorpos. Quiçá havia
compreendido, de modo muito carnal e quase canibalesco, a doutrina da «transubstanciação».
Não sei, mas em todo caso decidi não voltar à Missa
para que as coisas pudessem ir se esclarecendo.
Depois de alguns meses, decidi ir novamente a Missa; rebelei-me diante da minha
debilidade, e o desejo de continuar a aventura foi mais forte. Durante
a comunhão, e sem pensar, como na primeira vez, comecei a recitar
uma oração ritual para invocar a bênção
de Deus sobre todos os filhos de Abraão. Não fui eu quem encontrou
a solução, ou seja, meu eu profundo achou o ponto de encontro entre
minha oração, a música que vibra dentro de minha alma,
e a oração cristã, a Eucaristia.
No diálogo a pessoa não troca sua religião,
mas para de olhá-la como o fazia anteriormente; a própria religião
se transfigura diante dos olhos, como se o outro lhe tivesse emprestado
novos olhos. Por isso os conservadores de toda parte, temem o diálogo,
porque, no seu entender, perturba a tranquilidade da alma e corre-se o risco
de causar-lhes sua ruina. Os riscos existem certamente, mas a própria
vida é um risco.
Compreender e apreciar o cristianismo não significa necessariamente ser
batizado. Mas no meu caso, o cristianismo chegou a ser uma parte de minha formação
e de minha bagagem cultural; posso dizer, também, de minha identidade,
se compreendemos a identidade como caminho evolutivo complexo, que compreende
o que herdamos e o que fazemos e adquirimos. Uma vez superado o
primeiro choque e ter se familiarizado com a nova linguagem com
seus conceitos, pode-se inclusive, ser criativo neste espaço simbólico.
O segundo ponto de comunicação com o Cristianismo é sua
dimensão libertadora, em relação à justiça
social e à solidariedade com o pobre, os marginalizados e os oprimidos.
Esta dimensão torna o aspecto espiritual mais ativo e significativo, sobretudo
nos países do Sul do mundo. Por este motivo, a Teologia da Libertação,
a Teologia Negra, a Teologia da mulher, etc… foram muito úteis para
discernir um discurso cristão compreeensível.
Nesta linha, o conceito da missão, da’wa , toma outras
dimensões, chega a ser uma cooperação para a realização
ou a humanização do ser humano e da humanidade. O que Deus
quer de nós, juntos ? Que tipo de pessoa queremos educar? Quiçá exagero
um pouco quando falo de uma missão inter-religiosa; isso parece distante,
mas vejo os sinais de hoje, não obstante as catástrofes
que nos rodeiam.
Para salvar nossa Casa comum, a Barca celeste, é necessário ter
a coragem de dar um passo decisivo, expres- sivo e compreensível até outro;
acolher, como o outro nos acolhe e nos convida à sua casa.