Terça feira, 7 Julho 2009  
  "Espiritualidade, diálogo interreligioso e ecumênico "  
 
Palestra: Adnane Ben Abdelmajid Mokrani
Professor de diálogo inter-religioso, Universidade Pontifícia Gregoriana (PUG), Roma (Itália)
 
 
 
Comunicação nº 7
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

O DIALOGO INTER-RELIGIOSO COMO CAMINHO ESPIRITUAL

 

Falar muito de uma coisa significaria sua ausência ou, pelo menos, a exigência ou a urgência de sua presença. Isso me parece válido também para o diálogo inter-religioso. O verdadeiro diálogo começa quando os interlocutores já não usam a palavra diálogo;  o diálogo se converte para eles numa segunda natureza, um modo de ser e de agir que está em si. Dois amigos quando falam, não pensam nunca que estão dialogando. São amigos e isso basta. A amizade não significa ser fotocópia um do outro, pois são diversos por natureza. Somente os estranhos usam a palavra diálogo para marcar os limites.

Para mim, o diálogo é uma ontologia divina, humana e cósmica ao mesmo tempo, que tem um significado e um papel existencial. A partir desta convicção, o diálogo não é somente  uma necessidade pragmática para administrar as relações  entre as diversas comunidades e resolver os problemas de uma convivência em crise; este aspecto é certamente importante, mas não é justo reduzi-lo a um departamento de assuntos exteriores, religiosos ou/e políticos. O diálogo é um modo de ser e de agir que abrange tudo. Sem o apoio de uma espiritualidade dialogal, que encontra sua justa expressão na  teologia e no pensamento religioso em geral, o  diálogo correria o perigo de convertir-se numa vitrine diplomática marginal e superficial.

Partindo desta observação, o diálogo não é uma atividade entre outras atividades, senão um tipo de religiosidade entre outros tipos de religiosidades. Mas, de que tipo de religião e de religiosidade estamos falando ? Antes de tentar responder a esta pergunta (talvez com outras perguntas!), comecemos por analisar o sentido e o papel da religião.
Parto de um pressuposto: o papel da religião é dar-nos o sentido último do mundo e de nós mesmos, e dar-nos motivos para escolher e agir à luz desta acepção. Não sustento que somente a religião possui o monopólio do significado e da motivação. Há formas laicas de pensamento que buscam desafiar ou substituir as formas tradicionais da religião; podem ser consideradas como pseudo-religiões ou religiões simplesmente, no sentido amplo do termo, porque mais ou menos assumem este papel religioso, como geradoras do significado.

Neste contexto, insisto na unidade dos diversos aspectos da religião: a intenção e a ação, a interioridade e a exterioridade, a experiência religiosa e sua expressão  filosófica, teológica, artística, moral, social, política, etc. Esta unidade pede um certo equilíbrio e intercâmbio entre estas dimensões. Um pensamento teológico, por exemplo, distante da experiência espiritual, corre o perigo de ser uma linguagem de poder e de domínio.

Podemos nos  perguntar justamente:

  • que tipos de religiosidade permitem um verdadeiro diálogo?
  • Quando é que uma religião, ou um tipo de religiosidade, se converte num obstáculo?

Partindo de minha experiência e de minha compreensão do papel da religião, sustento que o principal obstáculo é o egoísmo, em outras palavras, a rejeição, o medo do outro e o desejo de dominá-lo, o fechamento nos  limites do ego, e o fechamento na particularidade. Neste sentido o egoísmo é anti-religioso por definição; é, simplesmente, satânico. A primeira palavra pronunciada  por Iblis (Satanás), quando  Deus lhe perguntou por que havia recusado prostrar-se diante de Adão, foi: «Eu, Eu sou melhor  do que ele, me criaste do fogo, enquanto que o criaste do barro” . Alcorão (7: 12). (38:76). O primeiro pecado é o racismo.

Segundo esta consideração, o papel principal da religião é libertar-nos do ego individual e do ego coletivo. Fala-se com  frequência do primeiro, mas raramente, do segundo.

Primeiro, porque as religiões condenaram, geralmente, o egoísmo individual; mas sendo construtoras de comunidade, reforçaram, querendo ou não, o comunitarismo, ou o que chamamos hoje, o tribalismo planetário. Quando uma comunidade deixa de ser um espaço de crescimento espiritual e se converte num absoluto em si mesma, se transforma em uma tribo, numa prisão para a pessoa.

Segundo, porque o egoísmo coletivo está escondido detrás de um pesado veu de coletividade no qual a responsabilidade não é muito clara. O subconsciente coletivo sabe como se defender com argumentos nacionalistas ou religiosos, sabe como fazer para justificar e enfeitar o seu racismo étnico ou religioso. O último é frequentemente menos nomeado e , por conseguinte, menos condenado.

O racismo religioso se converte em «rigor», «fervor» ou «zelo», segundo alguns. Em certos ambientes teológicos se chama «exclusivismo» ou «tradicionalismo». Nas sociedades antigas, às vezes é tolerado, como forma de orgulho tradicionalista e conservador, um certo exclusivismo teórico que não se traduz necessariamente em violência.

Nada está garantido. A experiência histórica nos ensina que este exclusivismo, dito «moderado», é o que contém  um potencial no qual nasce o exclusivismo explosivo. A passagem entre eles é como o das intenções às ações, do pronunciamento  do veredito à execução.

Por outro lado, nada está garantido, tampouco, no pluralismo religioso, porque existe sempre o perigo de ser exclusivistas com os exclusivistas, e cair assim num círculo vicioso de ação e contra-ação, do qual não se pode sair. É simplesmente uma contradição.

A luta contra o exclusivismo, como portador do virus da violência nacionalista ou religiosa, consiste num  trabalho teológico, de base, acompanhado de um longo itineráriopedagógico e educativo. Esta mudança progressiva e lenta depende também da cultura e das condições socio-econômicas. Sabemos que a injustiça social, o trabalho, a fome, la tirania, a tortura, a corrupção, etc., não são condições favoráveis à abertura e ao diálogo; ao contrário, são fatores de rebelião e de recusa que tomam, frequentemente, formas agressivas. Para os oprimidos,  esta violência poderia ser um ato de sobrevivência que, em casos extremos, corre o perigo  de transformá-los em opressores e reproduzir sobre os outros, o que sofreram.

Falando de modo geral, o diálogo inter-religioso não é  o centro das preocupações das pessoas comuns, numa  sociedade que sofre de uma falta perigosa de diálogo em  todos os níveis: entre estado e sociedade, governo e oposição; entre os partidos políticos, as classes sociais; entre gerações, entre os membros da família; entre nacionalistas e islamitas, entre os diversos grupos e tendências religiosas… Diante destes  nós, o diálogo inter-religioso, que se consegue realizar nas  universidades e nos centros de estudo, não interessa às massas famintas de pão e de liberdade. Neste quadro, o diálogo não faz parte das prioridades das pessoas. 

Tudo isso não está privado de elementos verdadeiros; o aspecto social e político é predominante no tipo de religiosidade árabe, por exemplo. Mas isso não justifica a exclusão do diálogo e o afastamento  de sua gente. O diálogo, como tenho falado antes, não é parcial , senão sistemático, é uma estrutura mental, um espírito que sopra e age em todas as partes. Uma reforma radical que não leve em conta a importância do diálogo, no meu parecer, está destinada ao fracasso.

Pode-se ir do diálogo ecumênico (interno) ao diálogo inter-religioso porque nos parece que contém menores implicações doutrinárias; é mais agradável  tratar com as pessoas distantes. Introduzir o  diálogo no sistema, é um desafio dificílimo.

Uma das maneiras características que pode ser obstáculo para o diálogo, é a particularidade cultural. O termo «particularidade» é mais neutro, comparado com o egoísmo, mas ambas podem impedir a abertura e a universalidade.

A viagem  entre Túnez e Roma dura cerca de uma hora de voo, mas o que conta verdadeiramente é a viagem  mental, que tem suas próprias dimensões. A geografía mental e imaginária, as casas de nossos sonhos e pesadelos, influem decisivamente em nosso modo de ser e de nos comportar. Saltar ou atravessar os muros do imaginário, isto é, passar do cristão imaginário ao cristão concreto (de toda maneira, a concretização permanece relativa), é o principal objetivo –segundo o eu- de nossa peregrinação no coração do mundo.

O Mediterrâneo une e separa dois mundos diversos. De modo geral (diria, de modo simplista), os países do Magreb –por sua geografia e sua história- são mais próximos da cultura ocidental, sobretudo da elite urbana; mas esta cultura é vista, frequentemente, em sua dimensão secular,  à francesa, na qual o aspecto religioso é descuidado, por não dizer, suspeitoso. Pelo contrário, para a grande maioria do povo magrebino, o imaginário clássico do outro (o conquistador espanhol e o colonizador francês) permaneceu quase intacto. Despois de um longo caminho de ocidentalização, geralmente forçado e superficial, a relação com o Ocidente tem permanecido ambígua: o Ocidente odiado e amado, condenado e glorificado, anti-religioso e cristão ao mesmo tempo.

A proximidade geográfica ou uma longa estadia no Ocidente não significam necessariamente um conhecimento profundo e compreensivo do outro; necessita-se  que os preconceitos e a memória estejam fora da crítica. Por isso as peregrinações culturais são necessárias para preparar uma nova geração que dialogue. O diálogo, hoje, é um requisito essencial para ser universal. Viver na pressuposição da ausência do outro é, agora, impossível.

Outro obstáculo cultural é a amplitude e a riqueza do patrimônio religioso acumulado durante séculos. As  ciências religiosas constituem um mundo muito  amplo. Pode-se  consagrar uma vida inteira à obra de um teólogo ou de um exegeta.

Desde qual parte do cristianismo pode um muçulmano começar seus estudos, ou vice-versa? Existe uma disciplina de Cristianologia homóloga à  de Islamologia?

Onde se  pode estudar tudo isso? As Universidades e  os Institutos pontificios são numerosos, mas, onde podemos começar os estudos do cristianismo? Mesmo aqueles que têm tempo para começar desde o início o caminho acadêmico: bacharelado, licenciatura e doutorado, devem escolher entre: História, Teologia, Estudos Bíblicos, Patrística, Espiritualidade, Missiologia, Estudos Ecumênicos… e na Teologia, deve-se escolher entre: Dogmática, Sistemática, Bíblica, Patrologia, Cristologia, Pneumatologia, Mariologia… Basta abrir um Ordo de qualquer universidade pontifícia para ver a abundância de opções; daí nasce uma certa perplexidade no início, que pode ser temporal, mas  que corre o risco, algumas vezes, de causar uma recusa total ou gerar um conhecimento superficial.

O obstáculo cultural não se limita à multiplicidade das disciplinas, senão que se manifesta, sobretudo, na diferença de linguagens e de categorias mentais. O discurso dogmático cristão não é fácil, sobretudo em sua forma filosófica abstrata. Como se faz para compreender um tema que parece difícil até para cristãos? O que me  diz a Encarnação, a Trindade, a Paixão, a Crucifixão, a Redenção…?

Todas estas dificuldades culturais, o egoísmo coletivo e a característica paranóica se encontram no nível individual, no coração do ser humano. Aqui a psicologia nos ajuda a encontrar a solução para os problemas da sociologia e da cultura.

Pode-se comparar minha experiência romana a um homem que sai de um contraste de luz e entra num quarto; no início não vê nada, e progressivamente começa a distinguir as coisas, depois percebe  que há uma cadeira sobre a qual pode sentar-se; depois  descobre  um interruptor para acender a luz, e assim vê um livro interessante junto à  cadeira e começa a lê-lo… e quiçá abrirá a janela para descobrir um belíssimo jardim escondido, e assim continuará...

Para mim, a descoberta do cristianismo não é  um Ordo universitário, ou uma bela biblioteca pontifícia. Certamente os livros e os cursos são úteis e necessários, mas o mais importante é o encontro humano, a amizade. É incrível e é  fascinante encontrar uma pessoa e um continente diverso, uma língua diversa, uma cultura diversa, uma religião diversa… Tudo parece diverso e insuperável; porém tudo isso pode não somente  ser comunicado, mas também encontrar-se um no ouro, descobrir uma unidade transcendente que constitui o núcleo de nossa humanidade e divindade. Tomar o  Evangelho ou o Catecismo da Igreja católica, e dizer “isto é o cristão”, é um modo restritivo e místico para conhecer o cristão. Há tanta diversidade e pluralidade no mundo concreto, não só entre direita e esquerda, conservadores e reformistas, espirituais e canônicos, heréticos e ortodoxos… mas  também entre pessoa e pessoa, entre um país e outro… e assim se descobre que atrás da classificação tradicional das religiões existe outra classificação de religiosidade. Há cristãos que vivem sua fé de um modo admirável para mim, mais ainda, dão a mim uma dimensão mais profunda e um horizonte mais amplo para minha experiência religiosa. Por outro lado, há outros que me fazem lembrar de alguns muçulmanos polêmicos e exclusivistas. De qualquer modo se dialoga e se aprende com todos; com os abertos se aprende a abertura, e com os fechados se aprende a arte da paciência.

Escutar plenamente o otro diferente, mesmo quando fala de un modo abusivo, é um exame decisivo e um desafio importantíssimo para o homem religioso, que mostra concretamente que se libertou do egoísmo, seja individual ou  coletivo, que assume, com frecuencia, formas muito desvanecidas por não dizer religiosas. O próprio diálogo é um modo ascético de purificação interior. Dialogar é um modo de aprofundar a nossa religiosidade, se compreendemos a religião como uma descoberta contínua dos rostos de Deus no  cosmos  no homem.

Na fraternidade al-Shadhiliyya pedem ao al-murid, o noviço, que distribua água na mesquita. Em Tunez é assim. Na mesquita al-Zaytuna  por exemplo, pode-se ver pessoas prestigiosas que se inclinam diante da gente para oferecer uma taça de água fresca nos dias calorosos do verão. Este pequeno gesto é muito significativo para eliminar o falso orgulho. O serviço é o coração da missão espiritual que impede toda tendência imperialista. E não existe serviço sem a humildade da escuta.

Um dos grandes desafios frente ao diálogo, é a educação. Como fazer para ensinar objetivamente a religião do outro? Certamente a objetividade é relativa, quiçá se necessita uma subjetividade positiva; um cristão não pode apresentar o Islã a seus correligionários, e é a  mesma coisa para um muçulmano que ensina o cristianismo, sem um mínimo de implicação e compaixão, sem um certo sentido de adesão ou  de identificação parcial, me atreveria  a dizer.

Devemos, também, estar atentos para não generalizar nossas convicções, sobretudo quando declaramos que as intenções são boas. A humanidade conheceu tantos tipos de imperialismo humanístico, um imperialismo soft que pode parecer anti-imperialista, ou melhor, contra a versão hard do imperialismo. O diálogo inter-religioso não é exceção.

No diálogo inter-religioso se condena, frequentemente, o perigo do relativismo, isto é, a convicção de que cada um traz consigo a própria verdade, o que significa que não é uma Verdade absoluta, senão somente verdades concretas, particulares e privadas.

Não quero defender a filosofía sofísta que anuncia que não há verdade por trás da retórica. Mas  sou consciente de que nossos contextos, linguagens, culturas… em suma, nossa condição humana, nos limita. A Verdade existe, portanto, é única, mas é plural em suas manifestações e conceitualizações. Deus é um em si mesmo, múltiplo em seus nomes e manifestações. Isso nos ensina a humildade, a abertura e a caridade hermenêutica. Há uma grande diferença entre o relativismo, a privatização da verdade, e a aceitação da natureza pluralista da verdade única. Esta última atitude estimula o diálogo e o conhecimento recíproco; pelo contrário, o relativismo chama  a fechar-se no recinto da pequena verdade.

Quisera dar-lhes dois exemplos concretos que podem  ser pontos de encontro e de comunicação, partindo sempre de minha  experiência. Estes dois temas exemplares têm sido  para mim muito úteis e iluminadores para continuar meu caminho dialogal:

O primeiro ponto é a Eucaristia. Parece estranho! Preguntar-se-ão justamente como um muçulmano que não crê na Crucifixão, na morte e  na Ressurreição de Cristo, nem tampouco em sua divindade, pode compreender a cenografía eucarística. Há uma incompatibilidade simbólica e doutrinária que impede a  pessoa, crescida no imaginário islâmico, decifrar o sentido que está por trás da máscara do símbolo, e assim  interagir positivamente com a liturgia eucarística; os símbolos chegam a ser simplesmente mudos e absurdos. Vejamos algum exemplo:

Na oração islâmica não se pode comer, no entanto a Eucaristía está baseada no símbolo do alimento.

O vinho está proibido no Islam, e na Eucaristia, o vinho se converte no sangue de Jesus Cristo.

Comer a carne de uma pessoa está unido, no simbolismo islâmico, ao pecado de falar mal dela em sua ausência (al-ghiba).

No plano doutrinal, a maioria dos muçulmanos, salvo algumas exceções, hoje creem  que a Crucifixão é negada categoricamente no Alcorão; bem, ou se crê no Alcorão ou na Crucifixão. Diante desta contradição radical, seria melhor evitar o argumento, considerá-lo como  tema tabu ou uma linha vermelha que não se deve tocar.

Em minha compreeensão da religião e do diálogo, não existem temas tabus que não devem ser discutidos, sobretudo quando se dá a confiança e a amizade. Não creio que os temas da Crucifixão e da Redenção sejam insuperáveis. O veu da história e da linguagem é o que os torna sensíveis. São verdades «transculturais», são verdades existenciais que nos esclarecem e dão sentido à vida. Os temas do sofrimento, da morte, do renascimento espiritual, da esperança… são temas humanos universais, não obstante a linguagem simbólica usada para expressá-los; são vidas e experiências para além da diversidade cultural. Neste caso, para um muçulmano é possível compreender a linguagem cristã.

Outras religiões usam diversas linguagens para expressar estas verdades existenciais. Alguns Sufi usaram o parto de Maria Virgem como modelo de sofrimento redentor e de um renascer espiritual da verdadeira identidade humana. O nascimento de Jesus Cristo, o advento natalício, toma aqui uma dimensão pascal de morte e ressurreição. No Xiismo podem ser encontrados traços pascais e redentores na morte de al-Husayn, o sobrinho do Profeta Maomé. Às vezes os místicos usaram uma linguagem erótica para expressar a comunhão e a união com Deus.

Não é fácil a questão; algumas vezes me parece mais profunda que uma diferença de categorias mentais; a questão é psíquica, radica no subconsciente, e nos mecanismos de defesa psíquica e  tomam, com frequência, formas sutis e indiretas.

Recordo que, recém chegado a Roma, resolvi participar na Missa, sem comungar, mas acompanhando  mentalmente, as pessoas para o altar. Em certo  momento me veio a  vontade de vomitar; foi uma reação que me surpreendeu, pois pensava que era mais tolerante!  Meu subconsciente reagiu fortemente e fisicamente por sua conta, sem me  pedir nenhuma licença. Assustou-me a descoberta  dos corredores e camadas  ocultas na  própria alma, devido a um sentimento estranho de instabilidade e de falta de controle. A alma estava num estado de rebelião, quiçá esta  seja a loucura. E assim minha nova aventura dialogal,  que apenas tinha começado, corria o perigo de fracassar.

Quiçá havia queimado etapas, minha vontade de ir velozmente até o fundo da experiência cristã desencadeou dentro de mim os alarmes psíquicos; a alma também tem os próprios anticorpos. Quiçá havia compreendido, de modo muito carnal e quase canibalesco, a doutrina da «transubstanciação». Não sei, mas  em todo caso  decidi não voltar à Missa para que as coisas pudessem ir se esclarecendo.

Depois de alguns meses, decidi ir novamente a Missa; rebelei-me diante da minha debilidade, e o  desejo de continuar a aventura foi mais forte. Durante a comunhão, e  sem pensar, como na primeira vez, comecei a recitar uma oração ritual para invocar a  bênção de Deus sobre todos os filhos de Abraão. Não fui eu quem encontrou a solução, ou seja, meu eu profundo achou o ponto de encontro entre minha  oração, a música que vibra dentro de minha alma, e a oração cristã,  a Eucaristia.

No diálogo a pessoa  não troca  sua religião, mas para de olhá-la como o fazia anteriormente; a própria religião se transfigura diante dos olhos, como se o outro lhe tivesse  emprestado novos olhos. Por isso os conservadores de toda parte, temem o diálogo, porque, no seu entender, perturba a tranquilidade da alma e corre-se o risco de causar-lhes sua ruina. Os riscos existem certamente, mas a própria vida é um risco.

Compreender e apreciar o cristianismo não significa necessariamente ser batizado. Mas no meu caso, o cristianismo chegou a ser uma parte de minha formação e de minha bagagem cultural; posso dizer, também, de minha identidade, se compreendemos a identidade como caminho evolutivo complexo, que compreende o que herdamos  e o  que fazemos e adquirimos. Uma vez superado o primeiro  choque e  ter se  familiarizado com a nova linguagem  com seus conceitos, pode-se inclusive, ser criativo neste  espaço simbólico.

O segundo ponto de comunicação com o Cristianismo é sua dimensão libertadora, em relação à justiça social e à solidariedade com o pobre, os marginalizados e os oprimidos. Esta dimensão torna o aspecto espiritual mais ativo e significativo, sobretudo nos países do Sul do mundo. Por este motivo, a Teologia da Libertação, a Teologia Negra, a Teologia da mulher, etc… foram muito úteis  para discernir um discurso cristão compreeensível.

Nesta linha, o conceito da missão, da’wa , toma outras dimensões, chega a ser uma cooperação para a realização ou a  humanização do ser humano e da humanidade. O que  Deus quer de nós, juntos ? Que tipo de pessoa queremos educar? Quiçá exagero um pouco quando falo de uma missão inter-religiosa; isso parece distante, mas  vejo os sinais  de hoje, não obstante as catástrofes que nos rodeiam.

Para salvar nossa Casa comum, a Barca celeste, é necessário ter a coragem de dar um passo decisivo, expres- sivo e compreensível  até outro; acolher, como o outro nos acolhe e nos convida  à  sua casa.

 

 
       
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