Segunda feira, 6 julho 2009
"Interculturalidade e responsabilidade universal."
 
Palestra: Catalina López-Correa
Vice-presidente Científica do Genoma Quebec – Montreal, Canadá.
 
 
 

Comunicação nº 6

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A GENÔMICA E A BIOTECNOLOGIA:
ASPECTOS ÉTICOS DE UMA REVOLUÇÃO EM CURSO

 

1.- Avanços científicos do terceiro milênio

1.1.- Sequenciação do Genoma Humano

 

Durante séculos, os cientistas exploraram e construíram mapas das terras e oceanos, com o objetivo de aumentar nosso conhecimento sobre o ambiente no qual vivemos. Um dos objetivos desta busca é melhorar a qualidade da vida humana, através da descoberta de novos recursos naturais.
Se o século XIX caracterizou-se pelas explorações geográficas e pelo nascimento das grandes cartografias, o século XXI caracteriza-se pelo desenvolvimento da cartografia humana, um retorno ao ser individual e um olhar próximo sobre nossa constituição biológica.
Um dos projetos maiores e mais reconhecidos neste campo é o Projeto do Genoma Humano (PGH). Este projeto de investigação, liderado por cientistas de renome internacional, com a participação de mais de 10 países diferentes, teve como objetivo a descoberta e a sequenciação da totalidade do DNA (material genético) de um indivíduo. A idéia última deste mapa genético é construir uma lista de nossos gens (unidade hereditária individual, responsável por nosso desenvolvimento desde a concepção), para assim entender nossa constituição biológica e melhorar nossa qualidade de vida.

Antes de entrar em mais detalhes sobre o projeto do Genoma Humano e suas aplicações, é importante definir alguns conceitos básicos desta área do conhecimento, que ajudaram a entender melhor os diferentes conceitos discutidos ao longo desta apresentação:

  • DNA: é a molécula que contém e transmite a informação genética dos organismos vivos (incluindo mamíferos, plantas, etc).
  • Cromossomos: são os componentes das células, de estrutura filamentosa, portadores dos fatores de herança ou gens. Consta que, na espécie humana, há 22 pares a mais de cromossomos sexuais, para um total de 46 cromossomos.
  • Gens: unidade do material genético hereditário que corresponde a um segmento determinado do DNA; nos primatas e nos seres humanos, os gens são encontrados nos cromossomos.
  • Genoma: é o conjunto dos cromossomos e do DNA de uma célula.

Se fizermos a analogia da informação genética com uma biblioteca, podemos dizer que o DNA encontra-se compactado em 23 cromossomos, que seriam como 23 volumes de uma enciclopédia. Cada volume contém distintos capítulos, que representam os gens, e cada capítulo está escrito em letras do alfabeto, que no DNA estão representadas pelas quatro letras (ACGT) do código genético.
Cada célula de nosso organismo (pele, músculo, cabelo etc) contém um total de 3 milhões de letras de DNA e 30.000 gens, que estão armazenados nos 23 cromossomos que formam o genoma ou o código genético. Decifrar ou sequenciar este código e entender o significado e a função de cada um dos capítulos (gens) desta enciclopédia (o genoma) tem sido um dos maiores desafios da ciência e da medicina neste terceiro milênio.

Esta saga do estudo do material genético humano começou em 1953, com a descoberta da famosa estrutura de dupla hélice do DNA. No dia 25 de abril de 2003, cinquenta anos depois, anunciou-se nos Estados Unidos a culminação da sequência do genoma humano, marcando assim a conclusão do projeto do genoma humano. Este primeiro projeto de cartografia do genoma humano durou, no total, quase 10 anos e marcou um momento histórico no desenvolvimento da medicina moderna. A este grande esforço de sequenciação do primeiro genoma de um ser humano acrescentaram-se centenas de projetos, nos quais foi realizada com êxito a cartografia dos genomas de múltiplos organismos (bactérias, vírus, animais domésticos, como o cachorro, a vaca, o porco etc). A genômica tornou-se uma ciência global que envolve não só os seres humanos, mas todas as espécies vivas.
O projeto do Genoma Humano e os projetos subsequentes de sequenciação de genomas de outros organismos já nos ensinaram coisas importantes como: a grande semelhança que existe entre o genoma humano e o genoma de outros organismos, a importância que podem ter algumas variantes genéticas na forma como respondemos a certos medicamentos e o papel que algumas mudanças genéticas desempenham no desenvolvimento de enfermidades.
Todos estes avanços abriram centenas de novos campos de pesquisa, mas também deram início a sérios questionamentos éticos. Os três problemas e questionamentos éticos mais importantes colocados pelos estudos sobre o genoma humano são:

  1. Determinar os limites de possíveis intervenções no genoma de um indivíduo e, em particular, decidir se eventuais intervenções na linha genética germinal podem ser licitas em algumas circunstâncias ou se, pelo contrário, devem ser proibidas em todos os casos.
  2. Evitar que a informação genética das pessoas chegue a mãos de pessoas ou instituições às quais não deveria chegar e seja utilizada contra as próprias pessoas.
  3. Conseguir fazer com que a biotecnologia contribua para a igualdade social, e não a desigualdade entre as pessoas e os povos.

A genética e a genômica transformaram-se em ciências universais; portanto, requerem uma aproximação global que respeite os direitos humanos e as prioridades bioéticas. Como descreve a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos da UNESCO, publicada em Outubro de 2005: “Ao abordar os problemas éticos colocados pela medicina, as ciências da vida e as tecnologias afins, em suas vertentes relacionadas com o ser humano, a Declaração, como se infere do próprio título, fundamenta os princípios nela consagrados por meio das normas vigentes sobre o respeito pela dignidade da pessoa, os direitos humanos e as liberdades fundamentais”.

O objetivo desta palestra será discutir alguns destes questionamentos, com a finalidade de explorar os debates éticos que enfrentamos hoje em dia, devido aos grandes avanços da ciência na última década. Conhecer e entender a natureza destes questionamentos e debates éticos é de crucial importância para a população em geral e, em particular, para vocês, como educadoras/es e guias de nossa juventude.

1.2.- A clonagem e a terapia gênica 

O projeto do Genoma Humano talvez tenha sido a maior conquista científica do século XXI. No entanto, outros eventos também marcaram a história da ciência moderna e tiveram um grande impacto na medicina e em outras ciências:

  • Em 1997, a fotografia do animal mais famoso do planeta, a ovelha “Dolly”, deu a volta ao mundo e monopolizou a atenção de todos os meios de comunicação. Dolly foi o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula adulta. Este singular avanço biológico nos abre perspectivas de um novo mundo biomédico, de consequências incalculáveis. Dolly tornou-se o símbolo internacional da clonagem. A partir de Dolly, porcos, ovelhas, vacas, gatos, roedores e, muito recentemente, uma mula foram clonados com êxito.
  • No ano 2000, a foto do macaco “ANDi” monopolizou novamente a atenção de vários meios de comunicação. Tratava-se do primeiro primata ao qual era incorporado um gen de outra espécie. Esta conquista faz pensar que, dentro de poucos anos, esta técnica poderá ser utilizada em seres humanos, para curar enfermidades nas quais há gens defeituosos, que poderiam ser substituídos pela versão correta do gen em questão.

Graças a estes avanços do conhecimento na área da fecundação artificial, a biologia molecular e a genética, os conceitos e práticas que, há apenas uma geração ou duas, pertenciam ao campo da ciência ficção, tornam-se rapidamente realidade.
A ovelha Dolly e o macaco “ANDi” representam as caras inocentes de duas grandes áreas de investigação que estão se desenvolvendo no terceiro milênio e que serão parte essencial da medicina do futuro: a terapia regenerativa e a terapia gênica.
Se fizermos uma analogia com um carro, a terapia regenerativa nos dará “as peças de reposição” que necessitamos quando alguma parte de nosso organismo se deteriorar, como é o caso das novas pesquisas sobre “o mal de Huntington”, publicadas na revista “Natura”, no ano 2000, nas quais mostrou-se que se pode regenerar algumas funções perdidas devido à enfermidade. Por outro lado, a terapia gênica permitirá criar novos modelos ou introduzir novos gens, para substituir gens defeituosos, e assim corrigir defeitos que se encontram na informação genética que trazemos desde a concepção.

A possibilidade da clonagem humana estimulou a imaginação popular desde tempos antigos. Por exemplo: a novela de suspense “Meninos do Brasil”, adaptada para o cinema em 1978, descrevia um criminoso de guerra nazista que organizava uma colônia de jovens “clones” de Hitler. Para muitos, a clonagem contém sugestões de imortalidade ou de eugenesia. Fraudes e afirmações incorretas feitas pelos meios de comunicação imiscuíram-se no debate sobre a clonagem, a maioria das vezes baseando-se mais na ciência ficção do que em experimentos científicos reais. Dolly, por sua vez, acrescentou ímpeto a estas conversações, à preocupação e aos questionamentos éticos acerca da clonagem humana.

Ao lado destes rápidos progressos científicos, surge a reflexão e, amiúde, a preocupação acerca de sua utilização adequada. Neste debate participam cientistas, legisladores, dirigentes religiosos, filósofos e organizações internacionais, mas nem sempre de forma harmoniosa. No entanto, de acordo com a declaração da UNESCO sobre o uso de células tronco e a clonagem, chegou-se ao consenso geral de que a clonagem, tal como a conhecemos hoje, é totalmente inaceitável.

É importante para vocês, como educadoras/es, como pessoas que estão em contato permanente com nossos jovens, obter esclarecimentos que lhes permitam estabelecer a diferença entre ficção e realidade, com relação à clonagem e à terapia gênica. Os meios de comunicação, livros como “Um Mundo Feliz”, de Aldous Huxley e filmes como “Matrix”, “GATTACA”, “Jurassic Park” e “O sexto dia” apresentaram estas técnicas experimentais como algo banal, de uso comum, porém, perigoso. Não obstante, os cientistas ainda estão longe de entender e controlar, em sua totalidade, estas técnicas experimentais; os exemplos bem sucedidos de clonagem de animais ainda são limitados e suas aplicações na prática médica, para curar ou prevenir doenças, permanecem ainda no plano teórico e especulativo.

1.3.- Pesquisas com células-tronco

As células-tronco embrionárias de seres humanos, isoladas pela primeira vez em 1998, são descritas essencialmente como células “em branco”, com potencialidade para transformar-se praticamente em qualquer tipo de tecido orgânico. Graças a esta plasticidade, as células-tronco têm a capacidade de ajudar a regenerar todo tipo de órgãos e tecidos (cérebro, coração, nervos etc); portanto, representam uma grande promessa para a cura e o tratamento de enfermidades degenerativas severas como o Alzheimer, o Parkinson, a Esclerose Múltipla e o Diabetes.

As pesquisas com as células-tronco representam um campo da medicina extraordinariamente promissor. Estas células-tronco podem ser obtidas de fontes muito diversas, como por exemplo, as células do cordão umbilical, algumas células da pele e algumas células da medula óssea. No entanto, uma das fontes mais importantes de células-tronco são os embriões humanos criados em laboratórios de fertilização “in vitro”. Os embriões que “sobram” do processo de fertilização “in vitro” podem ser conservados intactos por vários anos em nitrogênio líquido; em alguns países, estes embriões podem ser usados em pesquisa médica. Nos laboratórios de hoje em dia existem milhares destes embriões congelados (uns 400.000 só nos Estados Unidos, segundo estudo concluído em 2003). A política do governo de G. W. Bush estabelecia que os pesquisadores que trabalhavam em laboratórios do governo só poderiam utilizar embriões gerados antes de 2001 para a pesquisa com células-tronco.  Recentemente, os pesquisadores afirmaram que esta norma limita os campos de pesquisa, já que não podem testar novos métodos de cultivo de células-tronco. Sob a ótica de avaliar novas fontes para cultivo e geração de células-tronco, há poucos meses o governo de Barack Obama suspendeu o veto imposto por Bush, o que abrirá novos caminhos de investigação nesta área do conhecimento. Por outro lado, em dezembro de 2000, o Parlamento britânico aprovou a criação de embriões humanos, com o objetivo de obter células-tronco. As normas e políticas relacionadas com este tipo de pesquisa variam radicalmente de um país para outro.

Sem dúvida as pesquisas com células-tronco geraram muita polêmica nos últimos anos, levando líderes mundiais, tanto políticos como religiosos, a se pronunciarem sobre estes novos avanços científicos. O maior problema bioético das técnicas para obter e diferenciar células-tronco é o fato de recorrer ao embrião humano como fonte das mesmas. A gravidade de usar embriões com esta finalidade acentua-se no momento em que os embriões são criados “ex profeso”, com o único objetivo de gerar células-tronco.

Visto que, neste momento, é impossível responder de forma científica e objetiva a muitos dos questionamentos de bioética ligados a este tipo de pesquisa inovadora, é de se esperar que pessoas e comunidades busquem explicações baseadas em seus princípios morais ou em suas crenças religiosas. Em meados de 2008, reuniu-se em Londres um grupo de especialistas, para discutir os aspectos éticos da pesquisa com células-tronco provenientes de embriões humanos. A maioria das pessoas que participaram desta conferência de bioética em Londres eram líderes religiosos.

É importante destacar que, de acordo com o que foi apresentado nesta conferência de Londres, nem todas as religiões conferem os mesmos direitos a um embrião que a uma pessoa. Para a religião judaica, o embrião é considerado como portador de vida; portanto, deve ser tratado com o maior cuidado. Para os muçulmanos, um embrião recebe a alma entre o 40º dia e 120º depois da concepção. Sob o ponto de vista cristão, há várias posições: a posição gradualista (Igreja da Inglaterra) afirma que um embrião de menos de 14 dias não pode ser considerado ainda como uma pessoa; por outro lado, a posição absolutista afirma que um embrião já é um ser humano desde sua concepção. A Igreja Católica mantém uma posição similar, afirmando que o embrião é moralmente inviolável. No entanto, a Igreja Católica não se pronunciou especificamente sobre o momento no qual um embrião recebe a alma, passando a ser um ser humano.

Estes diferentes argumentos, relativos ao status moral dos embriões, ao lado de diferentes doutrinas religiosas e valores socioculturais, influenciaram na elaboração de diversos regulamentos relativos à proteção do embrião e às pesquisas realizadas com células-tronco. Em alguns países, como Alemanha e Costa Rica, é proibido destruir embriões para realizar pesquisas, enquanto que outros países, como Bélgica e o Reino Unido, permitem tanto a pesquisa com embriões “que sobram” como a criação de embriões para realizar pesquisas.
Em todas as sociedades, elaboraram-se conceitos sobre a vida, os valores e as normas relacionadas à reprodução, que estão profundamente arraigadas à cultura, tradição e doutrinas religiosas. Entretanto, os rápidos avanços da genética e da biotecnologia ultrapassam com facilidade as fronteiras nacionais e colocam muitas vezes em dúvida tais valores.

Estes debates tendem a tornar-se cada vez mais complexos à medida que a ciência avança, gerando novas perguntas e questionamentos. Um exemplo que ilustra este ponto são os casais jovens, que hoje enfrentam situações em que recebem ofertas para guardarem congeladas as células-tronco do cordão umbilical de seu bebê, a preços muitas vezes exorbitantes. Estes jovens casais enfrentam sérios dilemas: será importante investir altas somas em dinheiro nestas promessas médicas? Poderão as células-tronco ajudar a curar as doenças de futuros recém-nascidos? Devem os pais “investir” nesse tipo de tecnologia, ao invés de assegurar, por exemplo, uma boa educação para seus filhos?
É importante que vocês, como educadoras/es, possam orientar os jovens neste tipo de decisões vitais, ajudá-los a entender que estas pesquisas, mesmo que avançadas, ainda não deram resultados concretos. Ainda não se conhece o primeiro caso em que se tenha conseguido tratar com êxito uma enfermidade através do uso de células-tronco. As técnicas e avanços aqui discutidos são sumamente promissores, mas devem ser acolhidos com respeito e cautela.

1.4.- Rumo a uma medicina personalizada

As aplicações da genética na medicina são múltiplas e estão transformando radicalmente a forma como se pratica a medicina e o funcionamento dos sistemas e serviços de saúde. O uso e as aplicações da genética podem ser vistos em níveis muito diferentes:

  • Testes Genéticos para definir a suscetibilidade a certas doenças como o diabetes, o mal de Alzheimer, o câncer etc. Estes testes já se encontram disponíveis e acessíveis a pacientes em todos os países desenvolvidos e em um número crescente de países em desenvolvimento. Graças a estes testes genéticos será possível detectar algumas doenças em suas etapas iniciais (por exemplo, o diabetes) e poderão ser realizados tratamentos preventivos.
  • A farmacogenética: é a ciência que estuda a forma como as diferenças genéticas entre indivíduos afetam o modo como respondemos a certos medicamentos.  Atualmente existem testes genéticos que ajudam a identificar as pessoas que responderão melhor a certos medicamentos (por exemplo, drogas contra o câncer). Graças a estes marcadores genéticos é possível saber que pacientes podem beneficiar-se com o uso de certas drogas e quais poderiam apresentar efeitos colaterais ao tomar determinadas drogas.

É desta forma que, no cuidado médico e, portanto, em nossas vidas, os avanços na genética, na genômica e na biotecnologia permitiram passar do paradigma do tratamento das doenças à prevenção, oferecendo oportunidades de diagnóstico pré-natal, pré-implantatório (antes de implantar um embrião produzido através da fertilização “in vitro”) e diagnóstico, na tenra idade, de doenças complexas. Os testes genéticos permitiram iniciar o tratamento de doenças complexas como o câncer e o diabetes, antes que apareçam sintomas graves.

Na década de 90, estávamos longe de imaginar alguns dos avanços que agora são realidade no campo da genética e da medicina personalizada. Os questionamentos éticos relacionados com a pesquisa genética nessa época focalizavam-se, sobretudo, nos aspectos de autonomia, privacidade, justiça, igualdade e qualidade. Estes questionamentos continuam sendo válidos no momento atual, mas é importante anotar que os avanços em genética de populações, a compreensão da complexidade dos fatores genéticos associados às doenças e o impacto sócio-econômico da pesquisa genética criaram novos questionamentos e novas tendências no campo da bioética.

Alguns dos pontos principais da bioética da medicina personalizada são:

  • Sigilo e equidade no uso e na interpretação da informação genética.
  • Educação dos profissionais da saúde (médicos, enfermeiras/os etc) e dos organismos reguladores e governos, assim como do público em geral, especialmente os estudantes e universitários.
  • Equidade no tratamento e no uso dos avanços em genética.
  • Propriedade intelectual e comercialização de produtos da pesquisa genética.

Alguns destes debates levaram certos governos a tomarem decisões sérias, como é o caso de uma nova lei emitida em 2008, nos Estados Unidos: “A lei da não discriminação por informação genética” ou GINA, estabelecida para proibir o uso inadequado da informação genética por parte dos seguros médicos e empresários. A lei proíbe aos grupos de planos de saúde e seguradoras negar a cobertura individual com base na predisposição genética a desenvolver alguma doença no futuro.

Com relação a este questionamento sobre o uso da informação genética de indivíduos, a Organização Mundial da Saúde, a través de um comunicado feito em 2003, intitulado “Bases de dados genéticos: Medindo os benefícios e o impacto sobre os direitos humanos e dos pacientes”, diz: “Existe uma tensão fundamental entre a possibilidade de benefício comunitário, por um lado; por outro, o possível prejuízo individual. Os pontos mais importantes que devem ser definidos pela balança são os direitos humanos e a dignidade humana...”

Por último, todos estes avanços científicos relacionados com o genoma humano, a clonagem, as células-tronco e a medicina personalizada concentraram-se principalmente nos países industrializados, enquanto que seu potencial para combater doenças que afetam principalmente os países em desenvolvimento, como a malária e a tuberculose, foi minimamente explorado. Por isso, é importante educar os jovens de países em desenvolvimento, mostrar-lhes o grande potencial destas novas tecnologias, para assim impulsioná-los a promover o desenvolvimento deste tipo de pesquisa científica, para o benefício dos povos mais pobres.

2.- A universalidade do Genoma

2.1.- O projeto HapMap  

O projeto internacional HapMap teve início em 2003; a primeira fase terminou em 2006. Participaram do projeto mais de 15 países, com o objetivo de estudar a diversidade (e similitude) genética de 270 pessoas provenientes de 4 regiões diferentes: Nigéria, China, Japão e Estados Unidos. O resultado mais significativo deste estudo foi a criação de um mapa genético que foi colocado à disposição (livre acesso e gratuito) de toda a comunidade científica internacional. Este projeto baseia-se no que será uma prática comum a partir de 2005-2006: as bases de dados e publicações de livre acesso. Esta transformação oferece à comunidade científica as ferramentas necessárias para tornar a ciência aberta e disponível a todos. Estas novas redes de informação permitiram criar um novo estilo de solidariedade social, que se manifesta através de novas formas de colaboração e intercâmbio entre grupos de cientistas ao redor do mundo.

Os aprendizados que este projeto possibilitou não só ultrapassaram fronteiras, mas também setores econômicos e sociais. Por exemplo: as indústrias farmacêuticas e de biotecnologia estão usando este mesmo modelo de ciência aberta e colaborações científicas para criar novos projetos que promovam a criação de projetos de saúde, de pesquisa e desenvolvimento global, e não unicamente focalizados em regiões ou comunidades específicas.

A mensagem mais importante que podemos transmitir sobre este projeto é que, somente quando unirmos justiça e solidariedade (exemplificados aqui através do espírito de cooperação em nossas geografias biológicas e sociais), é que poderemos conquistar a dignidade e o bem-estar das pessoas, como indivíduos e cidadãos do mundo.

Uma forma de compartilhar os benefícios deste tipo de estudos genéticos é reconhecer a contribuição das comunidades que participam em projetos internacionais (como o projeto HapMap, por exemplo), proporcionar tecnologias a países em desenvolvimento e facilitar a criação de bases de dados internacionais, onde a informação genética seja acessível gratuitamente. A UNESCO e a OMS, em particular, estão definindo normas e parâmetros para evitar a exploração de comunidades minoritárias (comunidades indígenas, populações isoladas etc), quanto às análises genéticas. A idéia é que estas comunidades sejam bem informadas antes de convidá-las a participarem dos estudos e pesquisas; sobretudo, uma vez realizados os estudos e pesquisas, que estas comunidades possam beneficiar-se dos resultados

2.2.- A genômica a serviço do meio ambiente

Os grandes avanços da genômica não só foram aplicados ao campo da medicina e da saúde humana. A área de proteção e melhoramento do meio ambiente sentiu um grande impacto pelo uso dos avanços científicos neste campo.
A importância que nossa sociedade concede à diversidade biológica viu-se incrementada na última década. Há uma crescente preocupação pela perda de espécies e habitats, pela erosão da diversidade, sob um impacto humano cada vez maior, e pela modificação dos processos que a modelam, como, por exemplo, o aquecimento climático do planeta. Ao mesmo tempo, há um desafio marcado pela complexidade dos ecossistemas e pela ignorância dos mecanismos que sustentam a diversidade biológica.

A gestão florestal enquadra-se nos princípios básicos de conservação da biodiversidade, de proteção do meio ambiente e de sustentabilidade. Estes princípios requerem considerar, entre outros, diversos aspectos relacionados com a estimativa, manutenção ou aumento da variabilidade genética das espécies florestais, pois determinam, em grande parte, a evolução das populações futuras, sua adaptação ao meio e sua conservação.
Um exemplo concreto da pesquisa em genômica florestal é o projeto “Arborea”, que está sendo desenvolvido atualmente no Canadá. O principal objetivo deste projeto é usar marcadores genéticos para selecionar as árvores que, no futuro, crescerão mais sólidas e produzirão madeira de melhor qualidade. Ao contrário da questão dos alimentos ou organismos geneticamente modificados, que foram tão debatidos nos meios de comunicação, o projeto “Arborea” não tem a finalidade de modificar, mas selecionar as melhores árvores.

Desta forma, as aplicações da genética não só cruzam fronteiras, mas também setores econômicos, sociais e de desenvolvimento. Este projeto é mais uma prova da importância de que vocês, como educadores/as e pessoas que estão em contato direto com os jovens, possam ajudá-los a compreender a dimensão e o impacto destes avanços científicos.

2.3.- O genoma e as espécies

A Dra. Bartha Maria Knoppers, da Universidade de Montreal, reconhecida internacionalmente por seus trabalhos em bioética do genoma humano, em um de seus artigos mais recentes, fala sobre o conceito de universalidade do genoma. A Dra. Knoppers declara que os debates éticos atuais enfatizam a universalidade baseada no próprio genoma como uma fonte compartilhada. Afirma-se, então, que o genoma, no sentido coletivo, pertence a todos nós. A compreensão do genoma humano no nível das espécies levou à afirmação do princípio de universalidade do genoma e também à consciência de uma herança comum da humanidade e o conhecimento do genoma como um benefício público, e não individual.

Uma das mais importantes contribuições do projeto do genoma humano, graças à sequenciação de genomas de vários indivíduos, é a descoberta da grande semelhança que existe entre os seres humanos. A sequenciação do genoma humano revela-nos, uma vez mais, a igualdade essencial entre os seres humanos: compartilhamos 99,9% de nossos gens. Independentemente de raça, origem ou gênero, todas as sequências de DNA dos seres humanos são surpreendentemente similares. Além desta contribuição científica, descobriu-se que não só há uma grande semelhança no genoma dos seres humanos, mas também que esta semelhança se estende a outras espécies: descobriu-se que o genoma dos seres humanos é similar em 98% ao genoma dos primatas, 90% ao genoma dos roedores e 85% ao genoma de alguns peixes.

Antes de iniciar o projeto do Genoma Humano, os cientistas pensavam que os seres humanos teriam muito mais gens e um genoma muito mais complexo que os primatas ou os roedores, o que explicaria nossa “superioridade” na escala evolutiva. A realidade é que nosso genoma não é tão diferente ou tão superior como pensávamos. Estes resultados nos levam a confirmar o conceito da Dra. Knoppers sobre a Universalidade do genoma humano e a refletir sobre as diferenças que nós mesmos estabelecemos com relação às raças, origens etc... dos seres humanos.

4.- Para uma ética planetária 

Os debates bioéticos dos séculos XX e XXI concentraram-se em dois aspectos principais da pesquisa. No princípio da década de 90, o debate ético centrou-se no impacto do Projeto do Genoma Humano e na genética clínica; por exemplo: os testes genéticos, a discriminação genética e alguns aspectos da terapia gênica (tratamento baseado em gens). Não obstante, à medida que o tempo passou, o debate foi aberto e ampliado para a outros setores de pesquisa, como o aperfeiçoamento genético, o uso de células-tronco, a clonagem etc.
A forma de se entender a bioética mudou, por um lado, a ansiedade pública, associada muitas vezes aos alimentos geneticamente modificados (que foram vítimas de uma difusão maciça e descontrolada dos meios de comunicação), gerando uma demanda cada vez maior do reconhecimento dos fatores bioéticos envolvidos nesse tipo de pesquisa. Por outro lado, novas aplicações da genética, como a farmacogenética, a medicina preventiva etc... levaram a questionamentos sobre a aplicabilidade das normss de bioética que existem atualmente. De forma cada vez mais perceptível, a bioética foi se tornando o principal pilar de suporte para as pesquisas na área da genética. O interesse cada vez maior pelos temas de bioética associados às pesquisas na área da genética levou, como vimos no decorrer desta conferência, organizações internacionais como a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a UNESCO a definirem normas e políticas específicas com relação aos avanços no campo da genética e suas aplicações em pesquisas e em medicina. Estes debates éticos são um fenômeno global, que acontece em diferentes lugares do mundo, sob óticas, crenças e circunstâncias diferentes.

A bioética não consiste em teorias estáticas ou princípios que podem ser aplicados em todas as circunstâncias; pelo contrário, serve como guia para ajudar a entender, assumir e enfrentar situações diferentes.

Diante dos avanços da ciência e da tecnologia, a bioética não pode representar uma resistência ao progresso do mundo e da sociedade. Pelo contrário, faz-se necessário uma análise cuidadosa das vantagens e desvantagens da genética e um olhar objetivo que ajude a discernir como colocar esta ciência a serviço da humanidade. Um exemplo disso é a “Declaração Internacional sobre os Dados Genéticos Humanos”, elaborada pela UNESCO, que procura oferecer parâmetros éticos, sociais e legais aos estudos genéticos, levando em conta a liberdade de pesquisa, os direitos dos pacientes e o interesse da sociedade em geral.

Nestes campos relacionados com os avanços na área da genética e de biotecnologias, será necessário tomar decisões importantes e transcendentais nos próximos anos; para acertar nestas decisões, é imprescindível contar com a participação do maior número possível de interlocutores bem informados. Esta participação cidadã exige o compromisso, da parte dos educadores e dos meios de comunicação, de oferecer uma informação rigorosa, realista e acessível sobre os avanços da biomedicina; uma informação que leve à reflexão, ao posicionamento e ao diálogo entre os indivíduos e entre os povos.

 

Bibliografia

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Roma, 6 de junho de 2009

 

 
           
       
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