Sábado, 4 julho 2009
Reflection on the unifying theme.
 
Palestra: Alexander Zatirka, sj
Diretor do Departamento de Ciências Religiosas. Universidade Iberoamericana. México, D.F.
 
 
1.-Cultura, Religião e Identidade
2.- Experiência de Deus e Religião
3.- Evangelizzazione e Cultura
Condividendo la Buona Notizia del Regno attraverso frontiere culturali
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

EVANGELIZZAZIONE E CULTURA
Condividendo la Buona Notizia del Regno attraverso frontiere culturali

Introdução

É evidente que houve recentemente, na literatura teológica, um aumento notável de abordagens sobre a temática da evangelização inculturada, inclusive um bom número de documentos papais. Seria quase impossível conhecer a fundo todos os materiais produzidos nos últimos 40 anos, desde que o termo inculturação foi criado. A maioria destes documentos oferece um referencial de inspiração para que os cristãos se dediquem a levar a Boa Notícia a destinatários de diferentes culturas, levando em conta a riqueza destas culturas e a necessidade de tratá-las com respeito e sensibilidade. Contudo, poucos são os que propõem uma metodologia prática e viável para poder realizar este ministério.

Podemos dizer que a atitude descrita com o termo “inculturação” (que, como palavra, é um neologismo), foi parte integral da missão cristã desde seus inícios: levar o Evangelho a novas culturas e torná-lo acessível a elas. A Boa Notícia foi percebida muito rápido dentro da história da Igreja, como algo que estava além de uma expressão cultural particular, ou seja, era “transcultural”, fazendo referência a uma experiência fundante, como vimos no artigo anterior. Basta recordar a bem-sucedida transposição da experiência fundante cristã de suas origens judaicas para a cultura grecorromana. Para Paulo e seus seguidores, já era claro que a mensagem central de Jesus de Nazaré não estava vinculada (e muito menos limitada) a uma cultura particular. Porém, ao mesmo tempo, uma vez que uma cultura havia sido tocada pelo Evangelho, era transformada, deixando-lhe (apesar de suas características próprias) uma espécie de “selo”, que seria reconhecível para qualquer cristão que entrasse em contato com ela (“Os que se batizaram em Cristo revestiram-se de Cristo: já não há judeu nem grego; nem escravo nem livre; nem homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus”, Gal 3, 28-29).

A partir deste movimento em direção à universalidade do Evangelho, cada uma das novas comunidades cristãs, sem deixar seu contexto cultural, foi experimentando o Deus de Jesus como acessível a eles, como alguém que desejava estabelecer uma relação com eles, em seu próprio idioma e através de seus próprios referenciais de sentido. Isto se concretizou finalmente com o nascimento e a consolidação de Igrejas locais que tinham suas raízes na cultura originária de seus membros. E este encontro com a Boa Notícia, por sua vez, serviu de veículo de transformação para estas culturas, levando-as a uma renovação a partir de dentro.

Utilizando nosso marco teórico de referência, poderíamos dizer que, através de uma mistagogia cristã, os missionários bem-sucedidos permitiram às culturas receptoras ter acesso à experiência fundante própria do cristianismo, e esta, uma vez experimentada, converteu-se em semente de uma nova cultura cristã, encarnada nas expressões próprias da cultura receptora. Porém, para dizer que uma inculturação foi bem-sucedida, seria preciso provar que foi fiel à mensagem central cristã e fiel à identidade cultural que a acolhia. Isto, é claro, na medida do possível, visto que sempre havia elementos próprios das culturas destinatárias (em sua cosmovisão e ethos), que simplesmente não eram compatíveis com a experiência fundante cristã. Nestes casos, o encontro bem-sucedido com o cristianismo trouxe como consequência transformações com relação aos universos de sentido anteriores: uma nova cosmovisão e um novo ethos.

Isto quer dizer que o encontro da fé cristã com as novas culturas supôs um encontro de sistemas religiosos diferentes, alguns mais semelhantes à experiência cristã que outros, criando toda uma gama de possibilidades. Em algumas ocasiões, sobretudo no caso de conversões forçadas, fruto da conquista violenta, a evangelização se realizou prescindindo das características das culturas destinatárias, avassalando-as, debilitando-as e, inclusive em alguns casos, fazendo-as desaparecer. É o que se costuma chamar de aculturação. No outro extremo estão as experiências em que a transmissão do Evangelho foi muito superficial (nunca chegou a suscitar a experiência fundante própria da fé cristã); por isso, as culturas receptoras, se bem que puderam denominar-se de cristãs, não foram transformadas por este encontro, mantendo intactos sua cosmovisão e seu ethos.

O principal perigo sempre foram os extremos: por um lado, igualar a fé cristã a uma forma cultural particular de expressá-la, excluindo outras possibilidades; por outro lado, a atitude culturalista que considera que o valor fundamental é o respeito radical à cultura, o que levaria a temer “contaminá-la” com referências cristãs que lhe seriam alheias. O ideal é favorecer um diálogo entre a experiência fundante da fé cristã e todas as culturas possíveis, sob a premissa de que este encontro será mutuamente benéfico.

A prática do diálogo interreligioso e intercultural trouxe como consequência a conclusão de que, muito embora a Realidade Última (que para nós, cristãos, é Deus mediado por Cristo) seja transcultural (para além de qualquer expressão cultural que pretenda transmiti-la), sempre se manifesta dentro de um referencial cultural concreto.

1. Para entender o significado teológico de inculturação

Desde o princípio da história humana, as culturas estiveram interagindo umas com as outras, com cosmovisões e sistemas de significado alternativos e, em algumas ocasiões, contraditórios. Em geral, isto traz como consequência uma influência mútua, voltando-se algumas culturas para outras variáveis importantes em seus respectivos processos de evolução. A natureza destes "encontros" é diversificada. Podem ser pacíficos ou violentos; superficiais ou profundos; momentâneos ou duradouros. E é claro que suas consequências (desde as mínimas até as radicais) também são diversas.

Agora nos centraremos no tipo particular de interação cultural que chamamos inculturação. Trataremos de explicitar seu significado, processo, dificuldades e possibilidades. Inculturação é mais um termo teológico que antropológico, embora use conceitos e visões da antropologia e outras ciências sociais. A idéia de inculturação nasceu em círculos missionários cristãos, entre pessoas versadas no ministério de levar a mensagem cristã a culturas diferentes. Estes missionários haviam experimentado as dificuldades da comunicação intercultural. Como já explicitamos, por um lado sentiam a necessidade de compartilhar uma experiência de Deus vivida como positiva e transformadora. Por outro lado, estavam os "destinatários" desta mensagem, com seu próprio sistema de significados, sua cosmovisão, seu ethos e a religião que os unia e sustentava. Estes mundos culturais eram apreciados como ricos e de grande valor, como parte do patrimônio cultural e espiritual da humanidade. Como podiam encontrar-se estes dois elementos em um espírito de respeito e diálogo?

Especialmente durante o período colonialista, os missionários cristãos não tinham consciência de que, em geral, haviam assimilado sua própria experiência de salvação de uma cultura, isto é, a cultura na qual nasceram e foram formados. Sua fé foi vivida, se processou e foi compartilhada através dos símbolos próprios de suas tradições. É de se esperar que, se viveram imersos nestes universos culturais, não foram conscientes deles, como expressa o conto hindu do peixe que não está consciente de que se encontra na água. Não viam sua cultura como uma a mais, com suas próprias particularidades, mas como o referencial primário de “cultura”. Eram as culturas com as quais se encontravam, as culturas dos “pagãos”, que eram percebidas com esquisitices e particularidades. Isto não significava má intenção; era sentido como algo natural. O que tornava esta situação perigosa para a evangelização era que muito amiúde os missionários não conseguiam distinguir entre o Evangelho e a "invólucro" cultural na qual o haviam experimentado. Frequentemente sentiam que sua fé cristã só podia ser vivida totalmente em uma cultura similar à sua. Por esta razão, buscaram mudar ao invés de conhecer, apreciar e dialogar com as culturas que pretendiam evangelizar. Isto provocou muita “violência cultural” (e até física), gerando um grande prejuízo para a propagação da Boa Notícia cristã. Poderíamos dizer que se tornou uma “traição” à experiência fundante da fé baseada no encontro com um Deus que é amor incondicional e gratuito.

Em nosso documento de trabalho “Cultura e fé cristã”, vimos que, nos séculos XVI e XVII, os pioneiros da inculturação deram-se conta da necessidade de entrarem em diálogo com suas culturas interlocutoras. No entanto, estes pioneiros (Valignano, Ricci, De Nobili) foram exceções, não a regra. O crescimento da fé cristã nos últimos quinhentos anos foi paralelo à expansão colonialista (e amiúde violenta) da cultura européia ocidental. Primeiro conquistaram através da força as áreas territoriais que estavam sob a hegemonia destes grupos culturais; depois se colonizaram e se reestruturaram segundo os modelos europeus. Este modelo de expansão (a imposição de culturas nacionais aos povos sob sua tutela) foi adotado pela imensa maioria de missionários e era o modus operandi "oficial" das Igrejas cristãs, tanto católicas como protestantes, que sabotava a prática missionária, tornando-a incapaz de ser uma autêntica mistagogia cristã.

Com o surgimento mais ou menos recente de estudos críticos sobre o fenômeno cultural, mostrou-se que cada uma destas culturas avassaladas (e a dos conquistadores) aponta para um "projeto de vida" baseado em uma experiência particular de transcendência, expressa por sua religião. Se alguém deseja comunicar valores transcendentais através de fronteiras culturais, deve estar aberto para entender a experiência de Deus própria da cultura com a qual deseja “conversar”. Podemos concluir que, em muitos dos casos onde a cruz chegou junto com a espada, este processo não chegou a acontecer. Os vencidos, para evitar a perseguição dos que estavam no poder, buscaram formas de se adaptar ao “status quo”; porém, não chegaram a ter acesso ao que a fé cristã significa em sua mais profunda identidade, ou seja, seu paradigma. Para evitar a superficialidade, o processo de evangelização deve ser sensível à necessidade de inculturação.

Inculturação não é só adaptação aos elementos externos de outra cultura, nem é meramente uma estratégia pastoral. É o resultado da interação entre a identidade (e o patrimônio) cultural de um povo, por um lado, e por outro a ação evangelizadora de missionários que pertencem a outras culturas. Interação que idealmente afeta profunda e positivamente a ambos os interatuantes.

Este processo de inculturação é melhor descrito por metáforas que nos levam a seu significado teológico. No início, foi descrito como “revestir” os princípios evangélicos com uma roupagem cultural que os tornasse significantes para seus destinatários. Porém, logo se criticou esta metáfora, com base em que a interação entre o Evangelho e as culturas era um processo muito mais rico e profundo que colocar e tirar uma "roupagem" que vista como superficial e que parecia deixar intacta a cultura do destinatário.

Outra imagem descrevia a inculturação como o processo de plantar uma semente (o Evangelho) em terras diferentes (as culturas). O problema é que esta metáfora logo deu margem a que se concluísse (e se julgasse “a piori”) que, havendo terras (culturas) diferentes, cada uma tinha uma “fertilidade evangélica” também diferente, o que autorizava os missionários a discriminar as culturas que eles consideraram “estéreis” à Boa Notícia. Isto deu margem a uma justificativa pseudo-teológica para o racismo e o etnocentrismo.

Sugeriu-se também o casamento como metáfora para descrever a inculturação. Esta metáfora transmite melhor o caráter correlativo, dialogal, da interação entre o Evangelho e as culturas, onde os dois são considerados em uma relação de reciprocidade. No entanto, esta opção ainda não expressa a profundidade e a riqueza desta interação. De fato, alguns autores consideram que seria mais apropriado que fosse a descendência (os filhos), em lugar da própria união, que poderiam definir melhor o processo de inculturação.

Talvez a melhor analogia teológica, a mais aceita atualmente, para descrever a inculturação, seja o mistério da Encarnação. O Evangelho é chamado a encarnar-se na cultura, assumindo-a completamente e, ao mesmo tempo, transformando-a, levando-a a sua plenitude, pela forma como a Palavra de Deus redimiu nossa natureza humana, assumindo-a. Assim como a Palavra de Deus permaneceu a mesma depois de tomar nossa forma humana, o Evangelho permanece igual, mesmo que assuma formas culturais diferentes. A maior parte dos documentos recentes da Igreja costuma descrever a inculturação nestes termos.

Por outro lado, a inculturação também foi explicada através do mistério pascal de morte e Ressurreição. Cada cultura é chamada a viver um processo de conversão que inclui “morrer” para tudo o que nela seja alheio ao Evangelho. Esta mesma cultura ressuscitará (transformada) e crescerá, então, até sua plenitude. É importante destacar que as culturas, como criações humanas, têm suas ambiguidades, limitações e estruturas de pecado e poderes de morte . Aproximar delas, a partir da fé cristã, supõe discernimento, uma aproximação crítica entre o Evangelho e as culturas, inclusive as culturas (como as européias) que serviram tradicionalmente como veículos da fé cristã.

Finalmente, devemos considerar outro referencial teológico para a inculturação: a vinda do Espírito Santo em Pentecostes. Em Pentecostes, todas as culturas presentes ouviram a Boa Notícia da salvação "em sua própria língua" (Atos 2, 8). Portanto, isto quer dizer que não tiveram que aprender o idioma de Pedro para entender sua mensagem, mas o Espírito Santo, através de Pedro, tornou-o acessível a todos em seus idiomas próprios (culturas). Desta forma, todas as pessoas presentes ouviram o Evangelho e o entenderam, com base em sua própria tradição.

Todas estas metáforas derivadas do mistério da Redenção proveem uma inspiração teológica para aprofundarmos sobre o processo de inculturação: a Encarnação pode ser entendida como uma "condição"; o evento pascal (Paixão, Morte e Ressurreição) como descritivo do processo de inculturação e Pentecostes (o Espírito, que tudo renova) como sua força dinamizadora. Em última instância, é o Espírito de Deus que permite que a Igreja inculture o Evangelho.

Nos últimos 30 anos, a Igreja Católica foi desenvolvendo sua doutrina sobre a inculturação, mesmo que a inculturação tenha sido parte de sua prática desde o início. O Concílio Vaticano II trouxe um espírito de diálogo, ecumenismo, compreensão e apreço pela diversidade humana. O Concílio sentiu o ímpeto de voltar às origens da fé cristã, entender a fé como mistagogia e buscar uma congruência entre métodos e conteúdos de evangelização. A Igreja deu-se conta da necessidade de fazer com que sua mensagem fosse pertinente para o mundo ao qual sentia-se enviada. A Igreja tinha que trasladar-se para o “coração” do mundo, da vida humana. Isto significou, é claro, que teria que inculturar-se.

Tendo realizado uma exploração geral dos documentos da Igreja dos últimos quatro pontificados, que nos falam de inculturação, encontramos que suas conclusões parecem convergir em uma série de elementos, sem os quais não podemos entender (nem viver) o que a autêntica inculturação significa:

  1. O Evangelho não pode ser igualado a nenhuma cultura em particular. É independente das culturas . Melhor ainda, é transcultural. Porém, o Reino de Deus proclamado pela Boa Notícia de Jesus de Nazaré é vivido por mulheres e homens que estão imersos em culturas. Por conseguinte, as formulações históricas do Evangelho utilizam elementos destas culturas. O Evangelho pode penetrar nas culturas sem ficar sujeito a elas.

 

  1. Em seu contato com as culturas, a Igreja aprecia, respeita e protege “todas as coisas boas que estejam depositadas na mente e no coração das pessoas, nos ritos e nas culturas destes povos, [para que] não somente não desapareça, mas cobre vigor, eleve-se e se aperfeiçoe, para a glória de Deus" A Igreja reconhece o valor das religiões tradicionais (o coração de suas culturas): são as expressões viventes da alma de cada povo em particular, sustentadas por milhares de anos de busca de Deus, "com grande sinceridade e retidão de coração."
  1. A evangelização inculturada respeita e renova uma cultura, levando-a à plenitude. O processo de evangelização bem-sucedido afeta as áreas mais centrais da cultura e da mente humana, de forma que sejam transformadas e aperfeiçoadas pela fé cristã .

 

  1. A Igreja aprendeu que a inculturação requer tempo. É um processo profundo, que abrange muitos elementos, visto que inclui a vida toda da Igreja e todo o processo de evangelização: teologia, liturgia, a vida da Igreja e suas estruturas .
  1. Através da inculturação, a Igreja se encarna nas culturas e as introduz em sua comunhão, em um processo de enriquecimento mútuo, que ajuda a Igreja a conhecer e expressar melhor o mistério de Cristo, como também a corrigir distorções em sua forma de transmitir o Evangelho, ou seja, outra vez a congruência entre conteúdo e forma .

 

  1. Está claro que, para que tenha lugar uma autêntica evangelização, a Boa Notícia deve ser percebida como resposta aos anseios fundamentais das culturas destinatárias. É necessário assegurar que o Evangelho se converta em Boa Notícia concreta na vida das pessoas a evangelizar: compromisso com a paz, a justiça, os direitos humanos e promoção humana. A prova de que a inculturação aconteceu realmente é quando as pessoas se sentem cada vez mais comprometidas com sua fé cristã, pois a percebeu com maior clareza, através do olhar de sua própria cultura, mudando a atitude interna, até refletir a alegria do serviço .
  1. As Igrejas particulares são as principais responsáveis pela inculturação, assimilando a mensagem do Evangelho e transpondo-o, em sua verdade, para uma linguagem inteligível para sua cultura." A inculturação deve comprometer todo o povo de Deus, não só os “especialistas”, dado que os crentes refletem o Sensus Fidelium que nunca se deve perder de vista. Todo o povo de Deus é chamado a tornar-se sujeito (agente) da inculturação .

 

  1. É necessário encontrar um equilíbrio entre a "encarnação" local necessária do Evangelho e manter a comunhão universal dentro da Igreja. Uma tensão saudável entre estes polos (particularidade e universalidade) assegurará um autêntico processo de inculturação, guardando, ao mesmo tempo, a catolicidade da Igreja .

Estes oito pontos nos proporcionam os princípios fundamentais da doutrina da Igreja Católica com relação à inculturação. Buscam oferecer uma inspiração que aponte para a direção geral e forma do trabalho a ser realizado. No entanto, cada processo de inculturação deve ser desenvolvido e entendido de acordo com sua situação concreta. É responsabilidade do crente aprofundar sobre o que este processo significa para sua realidade concreta de evangelização, quais são seus principais desafios, como enfrentá-los, como fixar metas e como avaliá-las.

Pablo Suess, “El evangelio en las culturas: camino de vida y esperanza”, Selecciones de Teología, No. 133, enero-abril 1995, 33.

Paulo VI, Evangelii Nuntiandi 22, CELAM, Puebla 407.

Vaticano II, Lumen Gentium, 17.Juan Pablo II, Redemptoris Missio, 53.

Evangelii Nuntiandi, 19.; CELAM, MedellínVI 2 [5], e Santo Domingo 228; João Paulo II, Slavorum Apostoli, 16, Ecclesia in Africa, 59; and Ecclesia in Oceania, 16.

João Paulo II Ecclesia in Africa, 62.

João Paulo II, Orientale Lumen, 38.

Este ponto foi tratado com especial cuidado pelo Magistério das Igrejas Latinoamericanas nos documentos das Assembléias gerais do CELAM em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida.

João Paulo II, Ecclesia in Asia, 22.

Redemptoris Missio, 63. Ver também : CELAM, Medellín IV, 2 [8], Santo Domingo, 230b.

Ver Slavorum Apostoli, 27 e Orientale Lumen, 40.

3. Para uma metodologia da inculturação

A fé cristã é entendida como uma mensagem universal de salvação. Os cristãos experimentam Cristo e seu Evangelho como a forma mais válida e eficaz de encontrar Deus e, por esta razão, querem compartilhar sua fé com outros. Podemos dizer que o cristianismo é uma fé missionária por natureza. Contudo, esta pretensão de universalidade deve ser sustentada por seu êxito ao encarnar-se em contextos culturais e situações históricas diferentes, mantendo, ao mesmo tempo, uma comunhão de fé acessível e aceitável por todos. Não se deve esquecer que, para se expressar, as culturas não necessitam do Evangelho. No entanto, o Evangelho sempre requer mediações culturais para conseguir encarnar-se. Sem uma expressão cultural, o Evangelho não teria relevância nem significando para a humanidade.

Ao longo da história humana, o Evangelho expressou-se sempre dentro de uma cultura concreta. Por conseguinte, o processo de evangelização sempre trouxe consigo um encontro de culturas. O ideal da inculturação é que este encontro seja um diálogo que beneficie a ambos os participantes. Tem como pré-requisito que nenhum dos participantes desse diálogo tem a compreensão completa da Revelação. Os dois podem ganhar com a encarnação do Evangelho em um novo contexto cultural. Isto faz da inculturação um processo de discernimento cultural e espiritual. Partindo de uma mesma experiência de Deus, chega-se à sua expressão através de referenciais simbólicos diferentes, que ajudam a aproximar-se do mistério da Revelação com maior profundidade.

3.1 O primeiro passo em uma evangelização inculturada: a necessidade de conhecer a própria cultura e sua relação com o Evangelho.

O primeiro passo no processo de inculturação será dado pelos próprios evangelizadores, que devem compreender que o Evangelho, tal como o conhecem, inclusive a forma como o receberam e o experimentaram, está culturalmente delimitado. A verdade transcendente, eterna e transcultural encarnada em Cristo sempre se encontra presente nas formas culturais de tradições particulares. No cristianismo, a salvação sempre implica um encontro pessoal com Jesus Cristo e sua mensagem. Através deste encontro, o crente experimenta Deus como um Pai misericordioso e Cristo como o paradigma do que a humanidade é chamada a ser. Porém, as formas simbólicas através das quais esta experiência comum se expressa variam amplamente. Cada cultura entende e transmite sua história da Redenção com seus próprios termos culturais, que podem parecer estranhos e incompreensíveis para outras tradições.

Para ser um bom evangelizador, deve-se ter o marco teórico do conhecimento e análise da cultura e da importância da religião dentro dela. Esta foi a temática de nossa primeira conferência. Por isso, os agentes pastorais devem receber, como parte de sua formação, uma introdução às ciências da cultura: antropologia, linguística, crítica literária, semiologia etc. A importância que a inculturação tem para o processo de evangelização coloca efetivamente as ciências da cultura no nível de colaboradoras com as disciplinas teológicas, no trabalho de desenvolver modelos de Igreja e ministérios apropriados a novos universos culturais .

Com estas ferramentas analíticas, os evangelizadores podem entender sua própria cultura, um pré-requisito para entender outras culturas. Algumas perguntas que devem ser respondidas por esse tipo de análise são: Quais são as necessidades experimentadas em sua própria sociedade? Quais são os valores que lhe dão sentido e como se expressam simbolicamente? Estes valores têm ligação com o Evangelho? Este "inventário" das coisas de maior valor para a própria cultura pode ajudar a esclarecer nossa identidade religiosa. Constatar que, normalmente, muitas destas "coisas importantes" não têm nada a ver com o Evangelho mostra que todas as identidades religiosas são seletivas e sincréticas. É especialmente importante que os missionários tomem consciência de qualquer preconceito cultural que possam ter. Esta não é uma tarefa simples. Por exemplo: toda teologia pode ser considerada uma "teologia local", influenciada por um contexto particular, com sua cosmovisão, representações simbólicas e valores, relações de poder e interesses distintivos etc. A pretensão de considerar uma teologia concreta como normativa e "transcultural", evidenciando seus determinantes culturais, é, em si mesma, uma forma de preconceito .

Este processo de introspecção permitirá aos evangelizadores crescer em humildade e compreender que "a força total do Evangelho" não pode ser abarcada por nenhuma cultura particular, por mais séculos de contato que tenha tido com a mensagem evangélica . Todo anúncio humano do Evangelho é sempre uma aproximação; os evangelizadores devem ser conscientes disto. Não obstante, isto não deve representar um obstáculo para a evangelização. A história da Igreja demonstrou que o Evangelho pode inculturar-se com êxito. Esta condição de ser indefectivelmente “incompletas”, atribuídas a todas as teologias e, portanto, sua necessidade de serem complementadas, nos dá uma perspectiva correta do mistério da Revelação e sua interpretação, motivando-nos a inculturar a Boa Notícia em todas as culturas. Só assim poderemos avançar no processo de conhecer mais a fundo o que a revelação definitiva de Cristo significa para a humanidade e, eventualmente, corrigir erros e falsificações. Kirbi fala sobre mais de 7.000 culturas diferentes, vivas em nosso tempo . Em lugar de considerá-las um estorvo para a propagação do Evangelho, devem ser valorizadas como outras tantas claves hermenêuticas para entender o mistério infinito de Deus.

No entanto, não podemos pressupor que todas as teologias tenham a mesma capacidade de contribuir com maneiras diferentes de entender o Evangelho, ou que todos os seus referenciais de sentido possam ser considerados igualmente verdadeiros. Deus oferece sua presença e verdade a todos, sem nenhum favoritismo. Porém, a resposta à presença de Deus é sempre condicionada pela própria subjetividade humana . Este é um imenso campo para o discernimento que sempre implicará a adoção de critérios de juízo. Para a Igreja Católica, os critérios fundamentais para este discernimento são: as Sagradas Escrituras, a Tradição viva da Igreja (com seus dois elementos principais do Magistério e o sentido de fé dos fiéis, o Sensus Fidelium). Outras Igrejas cristãs têm seus próprios parâmetros de discernimento. Em todos os casos, a crítica cultural pode ajudar a evitar o etnocentrismo e a exclusão de cosmovisões alternativas.

Os missionários, sobretudo os provenientes das culturas "ocidentais", precisam submeter-se a um processo de "desarmamento cultural", renunciando a toda atitude hegemônica como as que foram usualmente desenvolvidas por estas tradições . Isto lhes permitirá inserir-se em um processo de diálogo em termos de equidade com outras culturas. A meta é a construção de um cristianismo que reflita a diversidade cultural e a riqueza de nosso mundo, sendo, ao mesmo tempo, autenticamente universal e Católico, transmitindo, através de sua atitude dialogal, humilde e serviçal, os conteúdos centrais da experiência fundante cristã.

A meta deste primeiro passo no processo de inculturação é permitir aos evangelizadores entender a "matriz cultural" de toda experiência de fé, incluindo a sua. Começar com o estudo de uma cultura familiar facilita o processo. Esta habilidade, uma vez aprendida, pode ser aplicada à aproximação a outras culturas e à transmissão de conteúdos (como a Boa Notícia), através de fronteiras culturais.

3.2 “Conhecer o outro” é o passo seguinte no processo de inculturação

Cruzar as fronteiras culturais nos faz compreender a diversidade das organizações sociais humanas. Cada cultura desenvolveu sua própria aproximação à vida, com seus símbolos, sistemas de valor e avaliação (ethos), sua cosmovisão e os sistemas religiosos que os sustentam. A comunicação entre estas tradições diferentes pode ser difícil. Para permitir um diálogo frutífero, é necessário um processo de tradução (decodificação e re-codificação de símbolos, conceitos, costumes, atitudes morais etc.). Nesta tarefa, as ciências da cultura proporcionam uma ajuda inestimável. Ajudam a interpretar o sistema simbólico usado em cada cultura, tornando seu significado acessível aos "forasteiros” (ou seja, aqueles provenientes de outras culturas).

Normalmente, este processo de interpretação inicia com o contato entre o "forasteiro" (que pode ser o evangelizador) e os membros da cultura interlocutora. Espera-se da parte do evangelizador uma atitude de abertura respeitosa para com os "outros". Sem dúvida, no princípio é de fundamental importância aprender o idioma do grupo interlocutor. Isto permitirá ao evangelizador estabelecer um nível básico de comunicação. Um idioma (especialmente sua estrutura) pode proporcionar um acesso privilegiado à cosmovisão de determinado grupo.

Porém, aprender o idioma não é suficiente, ainda que seja indispensável. Os próximos passos colocam o evangelizador em um contato mais íntimo com a cultura à qual chega, com o "outro". No início, o "forasteiro" vive um período de fascinação pelo grupo receptor. Tudo parece novo e interessante. Este período é descrito como "lua de mel", em que o interesse pelo desconhecido e o espírito de aventura parecem fazer adormecer as tensões criadas pelo fato de viver em um ambiente cultural diferente do seu.

Quando a primeira fascinação pelos novos ambientes vai se diluindo, o missionário começa a sentir verdadeiramente as diferenças culturais. Isto pode gerar conflitos e tensão. Nós, seres humanos, tendemos a ser etnocêntricos e isto é natural. Nossa identidade, construída dentro de uma cultura particular, com sua cosmovisão, valores e ferramentas para enfrentar a realidade, pode sentir-se ameaçada ao encontrar-se com identidades culturais alternativas (e às vezes contraditórias). Estas cosmovisões diferentes questionam a eficácia de nossa cultura como a forma mais “correta” de explicar a realidade e "viver" nela. Esta divergência pode ser percebida como uma ameaça a nossa identidade, particularmente quando nos encontramos rodeados de pessoas que não estão de acordo com o que nos parece fundamental. Inclusive pode ser percebida inconscientemente como uma agressão pessoal.

Esta fase do processo de inculturação é de suma importância. Pode ser vivida como uma oportunidade de vivenciar e constatar a diversidade humana e a alteridade como riqueza. Viver este processo com um espírito de humildade ajuda-nos a considerar nossa cultura e suas concreções sob uma perspectiva apropriada, permitindo-nos iniciar um verdadeiro diálogo com nossos interlocutores.

No entanto, também é um momento de perigo. Há duas possíveis deturpações nesta conjuntura. As duas implicam dois extremos pouco realistas na forma de considerar as culturas diferentes. No aspecto aparentemente afirmativo, encontramos o chamado “utopismo”, que é uma visão idealizada (e falsa) do "outro", em que todos os aspectos de sua cultura são considerados positivos (e, em geral, melhores que os da cultura própria) . Este otimismo pouco realista implica uma falsificação da cultura receptora que, finalmente, impede um intercâmbio cultural produtivo. O forasteiro não entra em diálogo com um "outro" real, mas com construções de sua fantasia (a síndrome do “buen salvaje”). Aqueles que caem nesta armadilha, não têm interesse em dialogar com as culturas enquanto tais, mas com sua visão idealizada delas, que não é outra coisa, senão uma projeção de si mesmos.

No outro lado do espectro, encontramos o extremo negativo do "racismo". Neste caso, todos os aspectos da "outra" cultura são considerados desprezíveis. Novamente, este é um caso de falsificação do interlocutor, no qual o forasteiro projeta sobre a cultura receptora seus próprios problemas de identidade e valorização cultural. Também neste caso o diálogo fica truncado.

Quando o "visitante" ultrapassa esta fase com êxito, sem cair nas armadilhas que acabamos de descrever, chega o momento de fazer uma consideração imparcial dos dois sistemas culturais (o próprio e o que se encontrou), descobrindo as diferenças entre eles e a natureza destas diferenças (superficiais, profundas, contraditórias, complementares etc.) A meta é aumentar o conhecimento e a apreciação do "outro", nossa compreensão, aceitação e respeito. O ideal é entender como a cultura interlocutora explicita e resolve suas questões mais importantes (necessidades, esperanças, medos, aversões, conflitos etc.) e como as expressam simbolicamente. Para isso, nos pode ajudar o que definimos em nossa primeira palestra como uma “etnografia religiosa”. Só então podemos considerar que estamos entrando em um diálogo intercultural.

Esta praxis de encontrar-se com o "outro" e preparar-se para o diálogo é em si mesma uma experiência de conversão. Traz consigo o que chamamos de "deslocamento cultural ." O "outro" é aceito em sua identidade, que não é definida em função da identidade do evangelizador. Se este continua avançando neste processo até apropriar-se dos sofrimentos e esperanças de sua cultura anfitriã, seu anúncio da Boa Notícia será mais significativo para seus interlocutores.

3.3 O diálogo, núcleo do processo de inculturação.

O autêntico encontro com o "outro", estabelecendo assim uma boa comunicação, é simplesmente um pré-requisito para o processo de construir o diálogo. É precisamente através do diálogo que os evangelizadores podem compartilhar sua fé com a cultura receptora. Entretanto, não é qualquer intercâmbio que pode ser considerado diálogo intercultural. Há algumas condições necessárias para possibilitar um intercâmbio frutífero de idéias através de fronteiras culturais.

Vimos em nossa primeira palestra que o propósito central da aproximação semiótica à cultura é ajudar-nos a ter acesso ao mundo conceitual de outras culturas que, por sua vez, nos permita "conversar" com elas. Esta aproximação "interativa" requer de nossa parte abertura e respeito por nossos interlocutores. Abertura que nos permitirá escutar o que eles realmente têm a dizer, esforçando-nos sempre para entender sua perspectiva e experiência de vida. Respeito para reconhecer suas contribuições com seu valor intrínseco, sem tentar adaptá-las a nossos parâmetros aceitáveis. Devemos evitar os extremos de considerar tais contribuições como falsas, em princípio, ou pensar que “os conhecemos melhor do que eles mesmos.”

O pluralismo cultural faz parte da condição humana; o imenso número de sistemas culturais o demonstra. Este pluralismo cultural pode contribuir para uma compreensão mais completa da realidade e do mistério de Deus. Através do diálogo, vão surgindo novas pistas para interpretar a Revelação de Deus. Este diálogo também nos coloca em contato com a ação de Deus em outras culturas. Por conseguinte, devemos nos aproximar deste exercício com um espírito de reverência para com a presença de Deus em cada cultura. O diálogo nos permite uma aproximação da visão da realidade Última que Deus concedeu como dom a cada tradição cultural.

A busca da verdade é a única meta possível para um diálogo intercultural honesto. Esta não é uma tarefa simples. A verdade é uma categoria dinâmica;  nenhuma pessoa ou sociedade pode pretender ter pleno acesso a ela. Precisamente porque Deus quis dar algo de si a todos, a verdade não é posse exclusiva ou privilegiada de nenhuma cultura. Em alguns documentos que tratam da inculturação aparece uma atitude de respeito pelas culturas, mas, ao mesmo tempo, de suspeita, ou talvez até de desprezo pelas religiões que as sustentam. Não obstante, “suprimi-las [as outras religiões] seria equivalente a apagar ou anular uma presença real, [a presença real] de Deus no mundo.” Contudo, se alguém se sente atraído pelo compromisso do evangelizador com Cristo e seu Evangelho, isto se deve à ação de Deus, ao invés de ser o resultado de uma “conversão” programada. A experiência nos mostrou que podemos nos aproximar mais da verdade através da discussão e da divergência do que através de um acordo superficial. Daí a importância de fortalecer o diálogo e a interculturalidade como uma atitude de vida e sua inclusão na formação de agentes pastorais.

Michael Amaladoss propõe quatro níveis de diálogo, cada um com sua própria especificidade . Primeiro considera um diálogo de vida, de interação diária. Isto seria similar ao encontro com o “outro”, ao qual já nos referimos. É através da partilha de vida com membros das culturas receptoras, conhecendo e compartilhando suas esperanças e medos, suas alegrias e sofrimentos, que aprendemos a entendê-los e a nos comunicarmos com eles, conquistando a autoridade moral para nos apresentarmos como interlocutores legítimos. No processo de evangelização, este pode ser o tipo mais importante de diálogo a empreender. Missionários que viveram inseridos em comunidades populares e indígenas foram motivados por esta intuição. Este diálogo de vida pode precisar de muitos anos, antes de dar o próximo passo.

Normalmente, o diálogo de vida seria considerado como um pré-requisito para as outras formas de diálogo. Entretanto, encontramos outros tipos de diálogo. Um diálogo também importante é o de "especialistas" na doutrina de cada grupo envolvido, que se encontram para compartilhar suas tradições e enriquecer-se mutuamente. Isto é o que Amaladoss define como diálogo de intercâmbio intelectual.

Outras formas de diálogo podem ser realizadas simultânea ou separadamente. Amaladoss considera fundamental o que chama de diálogo de experiência espiritual. De fato, este tipo de intercâmbios baseados mais na “experiência de Deus” (experiência fundante) que, nas doutrinas religiosas, provou ser especialmente frutífero. Um especialista neste campo, Wayne Teasdale, disse, a esse respeito, que, no nível místico, as religiões têm muito para compartilhar, enquanto que, no nível “acadêmico-doutrinal”, as palavras e conceitos se convertem em verdadeiros obstáculos para a comunicação interreligiosa . Finalmente, o quarto tipo de diálogo proposto por Amaladoss é chamado de “diálogo como colaboração para a promoção humana”. Uma forma privilegiada de dar testemunho da fé cristã é unir-se aos esforços em prol de uma sociedade e um mundo mais justo e equitativo.

Todas estas formas diversificadas de diálogo podem ser casuais, com quase nenhuma estrutura ou metodologia, ou organizadas, com vários graus de formalidade. O processo de evangelização pode ganhar muito com ambas as aproximações, cada uma contribuindo, através de sua riqueza particular, com o processo de inculturação.

4. A modo de conclusão: o papel da Comunidade no processo de inculturação.

Esta reflexão não estaria completa, se não enfatizasse a importância da Comunidade no processo da inculturação. Ao longo deste artigo, fomos descrevendo os pré-requisitos necessários para a encarnação genuína do Evangelho em uma cultura. No entanto, as evidências nos mostram que "só as pessoas versadas em sua própria cultura são capazes de inculturar e integrar o Evangelho a ela ". Os missionários devem reconhecer que nunca conhecerão (experimentarão) a cultura de seus interlocutores como as pessoas que nasceram e cresceram nelas. O papel do evangelizador é fazer com que a experiência cristã de Deus seja acessível à cultura dos destinatários. Porém, este é somente o princípio da caminhada. O Evangelho deve interagir com a cultura, com a vida das pessoas e com a Comunidade de fé.

A história nos ensina que o Evangelho é um fator de transformação cultural. Quando o Evangelho não desafia e renova uma sociedade, provavelmente não foi inculturado. Uma vez que a experiência cristã de Deus chegou a uma sociedade, questiona os elementos da cosmovisão da cultura que contradizem os valores do Evangelho. Esta “conversão” só pode acontecer nos corações e mentes das pessoas que conhecem a cosmovisão de sua cultura, com sua expressão simbólica, e que, ao mesmo tempo, experimentaram o encontro com o Deus de Jesus Cristo. Permanecendo em sua cultura, estes novos cristãos são críticos de todos os elementos, em sua sociedade, que são contrários ao Deus que experimentaram. De forma que os sujeitos, os promotores ativos desta fase final e definitiva do processo, são as Comunidades de fé enraizadas em suas respectivas culturas.

Estas Comunidades se constituem em "Igrejas locais", reconhecidas como essenciais no processo de evangelização. Crendo no mesmo Evangelho de todos os cristãos, o percebem, experimentam, expressam e celebram através de formas diversas. Assim foi que evoluíram todas as tradições dentro da Igreja: latina, bizantina, semita, eslava etc. Ultimamente, depois de muitos séculos de acomodação, a Igreja Católica deu passos importantes no sentido de reconhecer a necessidade da inculturação, e sua catequese atual o demonstra. No entanto, há um longo caminho pela frente. São necessárias ações pastorais concretas, que reconheçam a diversidade cultural como fundamental para a reflexão teológica, a liturgia, a estrutura da Igreja, os ministérios etc. A catolicidade da Igreja não pode continuar sendo construída com base em uma eclesiologia da uniformidade. A Igreja universal é chamada a ser enriquecida pelas novas vozes das Igrejas locais.

Com estas reflexões, terminamos mais esta trajetória, na busca de oferecer um marco teórico para as discussões, discernimentos e atividades dos próximos dias. Esperamos ter conseguido oferecer uma aproximação prática e útil ao fenômeno da cultura, sua relação com a religião e a identidade pessoal e grupal, assim como seu papel na transmissão da mensagem central da Boa Notícia cristã: a irrupção do Reino de Deus, como horizonte de sentido para a humani

3. Para uma metodologia da inculturação

A fé cristã é entendida como uma mensagem universal de salvação. Os cristãos experimentam Cristo e seu Evangelho como a forma mais válida e eficaz de encontrar Deus e, por esta razão, querem compartilhar sua fé com outros. Podemos dizer que o cristianismo é uma fé missionária por natureza. Contudo, esta pretensão de universalidade deve ser sustentada por seu êxito ao encarnar-se em contextos culturais e situações históricas diferentes, mantendo, ao mesmo tempo, uma comunhão de fé acessível e aceitável por todos. Não se deve esquecer que, para se expressar, as culturas não necessitam do Evangelho. No entanto, o Evangelho sempre requer mediações culturais para conseguir encarnar-se. Sem uma expressão cultural, o Evangelho não teria relevância nem significando para a humanidade.

Ao longo da história humana, o Evangelho expressou-se sempre dentro de uma cultura concreta. Por conseguinte, o processo de evangelização sempre trouxe consigo um encontro de culturas. O ideal da inculturação é que este encontro seja um diálogo que beneficie a ambos os participantes. Tem como pré-requisito que nenhum dos participantes desse diálogo tem a compreensão completa da Revelação. Os dois podem ganhar com a encarnação do Evangelho em um novo contexto cultural. Isto faz da inculturação um processo de discernimento cultural e espiritual. Partindo de uma mesma experiência de Deus, chega-se à sua expressão através de referenciais simbólicos diferentes, que ajudam a aproximar-se do mistério da Revelação com maior profundidade.

3.1 O primeiro passo em uma evangelização inculturada: a necessidade de conhecer a própria cultura e sua relação com o Evangelho.

O primeiro passo no processo de inculturação será dado pelos próprios evangelizadores, que devem compreender que o Evangelho, tal como o conhecem, inclusive a forma como o receberam e o experimentaram, está culturalmente delimitado. A verdade transcendente, eterna e transcultural encarnada em Cristo sempre se encontra presente nas formas culturais de tradições particulares. No cristianismo, a salvação sempre implica um encontro pessoal com Jesus Cristo e sua mensagem. Através deste encontro, o crente experimenta Deus como um Pai misericordioso e Cristo como o paradigma do que a humanidade é chamada a ser. Porém, as formas simbólicas através das quais esta experiência comum se expressa variam amplamente. Cada cultura entende e transmite sua história da Redenção com seus próprios termos culturais, que podem parecer estranhos e incompreensíveis para outras tradições.

Para ser um bom evangelizador, deve-se ter o marco teórico do conhecimento e análise da cultura e da importância da religião dentro dela. Esta foi a temática de nossa primeira conferência. Por isso, os agentes pastorais devem receber, como parte de sua formação, uma introdução às ciências da cultura: antropologia, linguística, crítica literária, semiologia etc. A importância que a inculturação tem para o processo de evangelização coloca efetivamente as ciências da cultura no nível de colaboradoras com as disciplinas teológicas, no trabalho de desenvolver modelos de Igreja e ministérios apropriados a novos universos culturais .

Com estas ferramentas analíticas, os evangelizadores podem entender sua própria cultura, um pré-requisito para entender outras culturas. Algumas perguntas que devem ser respondidas por esse tipo de análise são: Quais são as necessidades experimentadas em sua própria sociedade? Quais são os valores que lhe dão sentido e como se expressam simbolicamente? Estes valores têm ligação com o Evangelho? Este "inventário" das coisas de maior valor para a própria cultura pode ajudar a esclarecer nossa identidade religiosa. Constatar que, normalmente, muitas destas "coisas importantes" não têm nada a ver com o Evangelho mostra que todas as identidades religiosas são seletivas e sincréticas. É especialmente importante que os missionários tomem consciência de qualquer preconceito cultural que possam ter. Esta não é uma tarefa simples. Por exemplo: toda teologia pode ser considerada uma "teologia local", influenciada por um contexto particular, com sua cosmovisão, representações simbólicas e valores, relações de poder e interesses distintivos etc. A pretensão de considerar uma teologia concreta como normativa e "transcultural", evidenciando seus determinantes culturais, é, em si mesma, uma forma de preconceito .

Este processo de introspecção permitirá aos evangelizadores crescer em humildade e compreender que "a força total do Evangelho" não pode ser abarcada por nenhuma cultura particular, por mais séculos de contato que tenha tido com a mensagem evangélica . Todo anúncio humano do Evangelho é sempre uma aproximação; os evangelizadores devem ser conscientes disto. Não obstante, isto não deve representar um obstáculo para a evangelização. A história da Igreja demonstrou que o Evangelho pode inculturar-se com êxito. Esta condição de ser indefectivelmente “incompletas”, atribuídas a todas as teologias e, portanto, sua necessidade de serem complementadas, nos dá uma perspectiva correta do mistério da Revelação e sua interpretação, motivando-nos a inculturar a Boa Notícia em todas as culturas. Só assim poderemos avançar no processo de conhecer mais a fundo o que a revelação definitiva de Cristo significa para a humanidade e, eventualmente, corrigir erros e falsificações. Kirbi fala sobre mais de 7.000 culturas diferentes, vivas em nosso tempo . Em lugar de considerá-las um estorvo para a propagação do Evangelho, devem ser valorizadas como outras tantas claves hermenêuticas para entender o mistério infinito de Deus.

No entanto, não podemos pressupor que todas as teologias tenham a mesma capacidade de contribuir com maneiras diferentes de entender o Evangelho, ou que todos os seus referenciais de sentido possam ser considerados igualmente verdadeiros. Deus oferece sua presença e verdade a todos, sem nenhum favoritismo. Porém, a resposta à presença de Deus é sempre condicionada pela própria subjetividade humana . Este é um imenso campo para o discernimento que sempre implicará a adoção de critérios de juízo. Para a Igreja Católica, os critérios fundamentais para este discernimento são: as Sagradas Escrituras, a Tradição viva da Igreja (com seus dois elementos principais do Magistério e o sentido de fé dos fiéis, o Sensus Fidelium). Outras Igrejas cristãs têm seus próprios parâmetros de discernimento. Em todos os casos, a crítica cultural pode ajudar a evitar o etnocentrismo e a exclusão de cosmovisões alternativas.

Os missionários, sobretudo os provenientes das culturas "ocidentais", precisam submeter-se a um processo de "desarmamento cultural", renunciando a toda atitude hegemônica como as que foram usualmente desenvolvidas por estas tradições . Isto lhes permitirá inserir-se em um processo de diálogo em termos de equidade com outras culturas. A meta é a construção de um cristianismo que reflita a diversidade cultural e a riqueza de nosso mundo, sendo, ao mesmo tempo, autenticamente universal e Católico, transmitindo, através de sua atitude dialogal, humilde e serviçal, os conteúdos centrais da experiência fundante cristã.

A meta deste primeiro passo no processo de inculturação é permitir aos evangelizadores entender a "matriz cultural" de toda experiência de fé, incluindo a sua. Começar com o estudo de uma cultura familiar facilita o processo. Esta habilidade, uma vez aprendida, pode ser aplicada à aproximação a outras culturas e à transmissão de conteúdos (como a Boa Notícia), através de fronteiras culturais.

3.2 “Conhecer o outro” é o passo seguinte no processo de inculturação

Cruzar as fronteiras culturais nos faz compreender a diversidade das organizações sociais humanas. Cada cultura desenvolveu sua própria aproximação à vida, com seus símbolos, sistemas de valor e avaliação (ethos), sua cosmovisão e os sistemas religiosos que os sustentam. A comunicação entre estas tradições diferentes pode ser difícil. Para permitir um diálogo frutífero, é necessário um processo de tradução (decodificação e re-codificação de símbolos, conceitos, costumes, atitudes morais etc.). Nesta tarefa, as ciências da cultura proporcionam uma ajuda inestimável. Ajudam a interpretar o sistema simbólico usado em cada cultura, tornando seu significado acessível aos "forasteiros” (ou seja, aqueles provenientes de outras culturas).

Normalmente, este processo de interpretação inicia com o contato entre o "forasteiro" (que pode ser o evangelizador) e os membros da cultura interlocutora. Espera-se da parte do evangelizador uma atitude de abertura respeitosa para com os "outros". Sem dúvida, no princípio é de fundamental importância aprender o idioma do grupo interlocutor. Isto permitirá ao evangelizador estabelecer um nível básico de comunicação. Um idioma (especialmente sua estrutura) pode proporcionar um acesso privilegiado à cosmovisão de determinado grupo.

Porém, aprender o idioma não é suficiente, ainda que seja indispensável. Os próximos passos colocam o evangelizador em um contato mais íntimo com a cultura à qual chega, com o "outro". No início, o "forasteiro" vive um período de fascinação pelo grupo receptor. Tudo parece novo e interessante. Este período é descrito como "lua de mel", em que o interesse pelo desconhecido e o espírito de aventura parecem fazer adormecer as tensões criadas pelo fato de viver em um ambiente cultural diferente do seu.

Quando a primeira fascinação pelos novos ambientes vai se diluindo, o missionário começa a sentir verdadeiramente as diferenças culturais. Isto pode gerar conflitos e tensão. Nós, seres humanos, tendemos a ser etnocêntricos e isto é natural. Nossa identidade, construída dentro de uma cultura particular, com sua cosmovisão, valores e ferramentas para enfrentar a realidade, pode sentir-se ameaçada ao encontrar-se com identidades culturais alternativas (e às vezes contraditórias). Estas cosmovisões diferentes questionam a eficácia de nossa cultura como a forma mais “correta” de explicar a realidade e "viver" nela. Esta divergência pode ser percebida como uma ameaça a nossa identidade, particularmente quando nos encontramos rodeados de pessoas que não estão de acordo com o que nos parece fundamental. Inclusive pode ser percebida inconscientemente como uma agressão pessoal.

Esta fase do processo de inculturação é de suma importância. Pode ser vivida como uma oportunidade de vivenciar e constatar a diversidade humana e a alteridade como riqueza. Viver este processo com um espírito de humildade ajuda-nos a considerar nossa cultura e suas concreções sob uma perspectiva apropriada, permitindo-nos iniciar um verdadeiro diálogo com nossos interlocutores.

No entanto, também é um momento de perigo. Há duas possíveis deturpações nesta conjuntura. As duas implicam dois extremos pouco realistas na forma de considerar as culturas diferentes. No aspecto aparentemente afirmativo, encontramos o chamado “utopismo”, que é uma visão idealizada (e falsa) do "outro", em que todos os aspectos de sua cultura são considerados positivos (e, em geral, melhores que os da cultura própria) . Este otimismo pouco realista implica uma falsificação da cultura receptora que, finalmente, impede um intercâmbio cultural produtivo. O forasteiro não entra em diálogo com um "outro" real, mas com construções de sua fantasia (a síndrome do “buen salvaje”). Aqueles que caem nesta armadilha, não têm interesse em dialogar com as culturas enquanto tais, mas com sua visão idealizada delas, que não é outra coisa, senão uma projeção de si mesmos.

No outro lado do espectro, encontramos o extremo negativo do "racismo". Neste caso, todos os aspectos da "outra" cultura são considerados desprezíveis. Novamente, este é um caso de falsificação do interlocutor, no qual o forasteiro projeta sobre a cultura receptora seus próprios problemas de identidade e valorização cultural. Também neste caso o diálogo fica truncado.

Quando o "visitante" ultrapassa esta fase com êxito, sem cair nas armadilhas que acabamos de descrever, chega o momento de fazer uma consideração imparcial dos dois sistemas culturais (o próprio e o que se encontrou), descobrindo as diferenças entre eles e a natureza destas diferenças (superficiais, profundas, contraditórias, complementares etc.) A meta é aumentar o conhecimento e a apreciação do "outro", nossa compreensão, aceitação e respeito. O ideal é entender como a cultura interlocutora explicita e resolve suas questões mais importantes (necessidades, esperanças, medos, aversões, conflitos etc.) e como as expressam simbolicamente. Para isso, nos pode ajudar o que definimos em nossa primeira palestra como uma “etnografia religiosa”. Só então podemos considerar que estamos entrando em um diálogo intercultural.

Esta praxis de encontrar-se com o "outro" e preparar-se para o diálogo é em si mesma uma experiência de conversão. Traz consigo o que chamamos de "deslocamento cultural ." O "outro" é aceito em sua identidade, que não é definida em função da identidade do evangelizador. Se este continua avançando neste processo até apropriar-se dos sofrimentos e esperanças de sua cultura anfitriã, seu anúncio da Boa Notícia será mais significativo para seus interlocutores.

3.3 O diálogo, núcleo do processo de inculturação.

O autêntico encontro com o "outro", estabelecendo assim uma boa comunicação, é simplesmente um pré-requisito para o processo de construir o diálogo. É precisamente através do diálogo que os evangelizadores podem compartilhar sua fé com a cultura receptora. Entretanto, não é qualquer intercâmbio que pode ser considerado diálogo intercultural. Há algumas condições necessárias para possibilitar um intercâmbio frutífero de idéias através de fronteiras culturais.

Vimos em nossa primeira palestra que o propósito central da aproximação semiótica à cultura é ajudar-nos a ter acesso ao mundo conceitual de outras culturas que, por sua vez, nos permita "conversar" com elas. Esta aproximação "interativa" requer de nossa parte abertura e respeito por nossos interlocutores. Abertura que nos permitirá escutar o que eles realmente têm a dizer, esforçando-nos sempre para entender sua perspectiva e experiência de vida. Respeito para reconhecer suas contribuições com seu valor intrínseco, sem tentar adaptá-las a nossos parâmetros aceitáveis. Devemos evitar os extremos de considerar tais contribuições como falsas, em princípio, ou pensar que “os conhecemos melhor do que eles mesmos.”

O pluralismo cultural faz parte da condição humana; o imenso número de sistemas culturais o demonstra. Este pluralismo cultural pode contribuir para uma compreensão mais completa da realidade e do mistério de Deus. Através do diálogo, vão surgindo novas pistas para interpretar a Revelação de Deus. Este diálogo também nos coloca em contato com a ação de Deus em outras culturas. Por conseguinte, devemos nos aproximar deste exercício com um espírito de reverência para com a presença de Deus em cada cultura. O diálogo nos permite uma aproximação da visão da realidade Última que Deus concedeu como dom a cada tradição cultural.

A busca da verdade é a única meta possível para um diálogo intercultural honesto. Esta não é uma tarefa simples. A verdade é uma categoria dinâmica;  nenhuma pessoa ou sociedade pode pretender ter pleno acesso a ela. Precisamente porque Deus quis dar algo de si a todos, a verdade não é posse exclusiva ou privilegiada de nenhuma cultura. Em alguns documentos que tratam da inculturação aparece uma atitude de respeito pelas culturas, mas, ao mesmo tempo, de suspeita, ou talvez até de desprezo pelas religiões que as sustentam. Não obstante, “suprimi-las [as outras religiões] seria equivalente a apagar ou anular uma presença real, [a presença real] de Deus no mundo.” Contudo, se alguém se sente atraído pelo compromisso do evangelizador com Cristo e seu Evangelho, isto se deve à ação de Deus, ao invés de ser o resultado de uma “conversão” programada. A experiência nos mostrou que podemos nos aproximar mais da verdade através da discussão e da divergência do que através de um acordo superficial. Daí a importância de fortalecer o diálogo e a interculturalidade como uma atitude de vida e sua inclusão na formação de agentes pastorais.

Michael Amaladoss propõe quatro níveis de diálogo, cada um com sua própria especificidade . Primeiro considera um diálogo de vida, de interação diária. Isto seria similar ao encontro com o “outro”, ao qual já nos referimos. É através da partilha de vida com membros das culturas receptoras, conhecendo e compartilhando suas esperanças e medos, suas alegrias e sofrimentos, que aprendemos a entendê-los e a nos comunicarmos com eles, conquistando a autoridade moral para nos apresentarmos como interlocutores legítimos. No processo de evangelização, este pode ser o tipo mais importante de diálogo a empreender. Missionários que viveram inseridos em comunidades populares e indígenas foram motivados por esta intuição. Este diálogo de vida pode precisar de muitos anos, antes de dar o próximo passo.

Normalmente, o diálogo de vida seria considerado como um pré-requisito para as outras formas de diálogo. Entretanto, encontramos outros tipos de diálogo. Um diálogo também importante é o de "especialistas" na doutrina de cada grupo envolvido, que se encontram para compartilhar suas tradições e enriquecer-se mutuamente. Isto é o que Amaladoss define como diálogo de intercâmbio intelectual.

Outras formas de diálogo podem ser realizadas simultânea ou separadamente. Amaladoss considera fundamental o que chama de diálogo de experiência espiritual. De fato, este tipo de intercâmbios baseados mais na “experiência de Deus” (experiência fundante) que, nas doutrinas religiosas, provou ser especialmente frutífero. Um especialista neste campo, Wayne Teasdale, disse, a esse respeito, que, no nível místico, as religiões têm muito para compartilhar, enquanto que, no nível “acadêmico-doutrinal”, as palavras e conceitos se convertem em verdadeiros obstáculos para a comunicação interreligiosa . Finalmente, o quarto tipo de diálogo proposto por Amaladoss é chamado de “diálogo como colaboração para a promoção humana”. Uma forma privilegiada de dar testemunho da fé cristã é unir-se aos esforços em prol de uma sociedade e um mundo mais justo e equitativo.

Todas estas formas diversificadas de diálogo podem ser casuais, com quase nenhuma estrutura ou metodologia, ou organizadas, com vários graus de formalidade. O processo de evangelização pode ganhar muito com ambas as aproximações, cada uma contribuindo, através de sua riqueza particular, com o processo de inculturação.

4. A modo de conclusão: o papel da Comunidade no processo de inculturação.

Esta reflexão não estaria completa, se não enfatizasse a importância da Comunidade no processo da inculturação. Ao longo deste artigo, fomos descrevendo os pré-requisitos necessários para a encarnação genuína do Evangelho em uma cultura. No entanto, as evidências nos mostram que "só as pessoas versadas em sua própria cultura são capazes de inculturar e integrar o Evangelho a ela ". Os missionários devem reconhecer que nunca conhecerão (experimentarão) a cultura de seus interlocutores como as pessoas que nasceram e cresceram nelas. O papel do evangelizador é fazer com que a experiência cristã de Deus seja acessível à cultura dos destinatários. Porém, este é somente o princípio da caminhada. O Evangelho deve interagir com a cultura, com a vida das pessoas e com a Comunidade de fé.

A história nos ensina que o Evangelho é um fator de transformação cultural. Quando o Evangelho não desafia e renova uma sociedade, provavelmente não foi inculturado. Uma vez que a experiência cristã de Deus chegou a uma sociedade, questiona os elementos da cosmovisão da cultura que contradizem os valores do Evangelho. Esta “conversão” só pode acontecer nos corações e mentes das pessoas que conhecem a cosmovisão de sua cultura, com sua expressão simbólica, e que, ao mesmo tempo, experimentaram o encontro com o Deus de Jesus Cristo. Permanecendo em sua cultura, estes novos cristãos são críticos de todos os elementos, em sua sociedade, que são contrários ao Deus que experimentaram. De forma que os sujeitos, os promotores ativos desta fase final e definitiva do processo, são as Comunidades de fé enraizadas em suas respectivas culturas.

Estas Comunidades se constituem em "Igrejas locais", reconhecidas como essenciais no processo de evangelização. Crendo no mesmo Evangelho de todos os cristãos, o percebem, experimentam, expressam e celebram através de formas diversas. Assim foi que evoluíram todas as tradições dentro da Igreja: latina, bizantina, semita, eslava etc. Ultimamente, depois de muitos séculos de acomodação, a Igreja Católica deu passos importantes no sentido de reconhecer a necessidade da inculturação, e sua catequese atual o demonstra. No entanto, há um longo caminho pela frente. São necessárias ações pastorais concretas, que reconheçam a diversidade cultural como fundamental para a reflexão teológica, a liturgia, a estrutura da Igreja, os ministérios etc. A catolicidade da Igreja não pode continuar sendo construída com base em uma eclesiologia da uniformidade. A Igreja universal é chamada a ser enriquecida pelas novas vozes das Igrejas locais.

Com estas reflexões, terminamos mais esta trajetória, na busca de oferecer um marco teórico para as discussões, discernimentos e atividades dos próximos dias. Esperamos ter conseguido oferecer uma aproximação prática e útil ao fenômeno da cultura, sua relação com a religião e a identidade pessoal e grupal, assim como seu papel na transmissão da mensagem central da Boa Notícia cristã: a irrupção do Reino de Deus, como horizonte de sentido para a humanide

Kirbi, Jon P., “Language and Culture Learning IS Conversion... IS Ministry”, Missiology: An International Review, Vol. XXIII, No. 2, April 1995, 135.

Cf. Menamparampil, Thomas, “El reto de las culturas”, Servicio de Prensa para Religiosos y Religiosas (Madrid), abril-junio 1998, 18.

Cf. Suess, Paulo, “O Evangelho nas culturas: caminho de vida e esperança. Apontamentos para o V Congresso Missionário Latino-Americano”, Perspectiva Teológica, n. 25 (1993), 308.

Cf. Kirbi, “Language and Culture Learning IS Conversion”, 135.

Torres Queiruga, Andrés, “Cristianismo y Religiones: ‘Inreligionación’ y cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1, enero 1997, 7.

Cf. Vitoria Cormenzana, Francisco Javier, “Diversidad cultural y evangelio de los pobres”, Revista Latinoamericana de Teología, XIV, No. 42, 1997, 275

Ver:Todorov, Tzvetan, La conquista de América, el problema del otro, Siglo XXI Editores, México 2001, 182-194.

Pablo Suess, “El evangelio en las culturas: camino de vida y esperanza”, Selecciones de Teología, No. 133, 33-42

Torres Queiruga, Andrés (1997) “Cristianismo y Religiones: ‘Inreligionación’ y cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1, 10-11.

Amaladoss, Michael, “Dialogue and Mission”, Interview in Columbans, [on line] <http://indigo.ie/~columban/amalad.htm> [accessed 23rd Novermber 2002];

Teasdale, Wayne, “Interreligious Dialogue since Vatican II”, Spirituality Today, Vol. 43, No. 2, Summer 1991, 119-133.

Ver: Maccise, Camilo, “New Prospects and Challenges for Missions”, OCD General House 1998 y Thomas Menamparampil “El reto de las culturas”, 18.

Kirbi, Jon P., “Language and Culture Learning IS Conversion... IS Ministry”, Missiology: An International Review, Vol. XXIII, No. 2, April 1995, 135.

Cf. Menamparampil, Thomas, “El reto de las culturas”, Servicio de Prensa para Religiosos y Religiosas (Madrid), abril-junio 1998, 18.

Cf. Suess, Paulo, “O Evangelho nas culturas: caminho de vida e esperança. Apontamentos para o V Congresso Missionário Latino-Americano”, Perspectiva Teológica, n. 25 (1993), 308.

Cf. Kirbi, “Language and Culture Learning IS Conversion”, 135.

Torres Queiruga, Andrés, “Cristianismo y Religiones: ‘Inreligionación’ y cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1, enero 1997, 7.

Cf. Vitoria Cormenzana, Francisco Javier, “Diversidad cultural y evangelio de los pobres”, Revista Latinoamericana de Teología, XIV, No. 42, 1997, 275

Ver:Todorov, Tzvetan, La conquista de América, el problema del otro, Siglo XXI Editores, México 2001, 182-194.

Pablo Suess, “El evangelio en las culturas: camino de vida y esperanza”, Selecciones de Teología, No. 133, 33-42

Torres Queiruga, Andrés (1997) “Cristianismo y Religiones: ‘Inreligionación’ y cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1, 10-11.

Amaladoss, Michael, “Dialogue and Mission”, Interview in Columbans, [on line] <http://indigo.ie/~columban/amalad.htm> [accessed 23rd Novermber 2002];

Teasdale, Wayne, “Interreligious Dialogue since Vatican II”, Spirituality Today, Vol. 43, No. 2, Summer 1991, 119-133.

Ver: Maccise, Camilo, “New Prospects and Challenges for Missions”, OCD General House 1998 y Thomas Menamparampil “El reto de las culturas”, 18.

 

 
       
       
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