EVANGELIZZAZIONE E CULTURA
Condividendo la Buona Notizia del Regno attraverso frontiere culturali
Introdução
É evidente que houve recentemente, na literatura
teológica, um aumento notável de abordagens
sobre a temática da evangelização inculturada,
inclusive um bom número de documentos papais. Seria
quase impossível conhecer a fundo todos os materiais
produzidos nos últimos 40 anos, desde que o termo
inculturação foi criado. A maioria destes documentos
oferece um referencial de inspiração para que
os cristãos se dediquem a levar a Boa Notícia
a destinatários de diferentes culturas, levando em
conta a riqueza destas culturas e a necessidade de tratá-las
com respeito e sensibilidade. Contudo, poucos são
os que propõem uma metodologia prática e viável
para poder realizar este ministério.
Podemos dizer que a atitude descrita com o termo “inculturação” (que,
como palavra, é um neologismo), foi parte integral
da missão cristã desde seus inícios: levar
o Evangelho a novas culturas e torná-lo acessível
a elas. A Boa Notícia foi
percebida muito rápido dentro da história da
Igreja, como algo que estava além de uma expressão
cultural particular, ou seja, era “transcultural”,
fazendo referência a uma experiência fundante,
como vimos no artigo anterior. Basta recordar a
bem-sucedida transposição da experiência
fundante cristã de suas origens judaicas para a cultura
grecorromana. Para Paulo e seus seguidores, já era
claro que a mensagem central de Jesus de Nazaré não
estava vinculada (e muito menos limitada) a uma cultura particular.
Porém, ao mesmo tempo, uma vez que uma cultura havia
sido tocada pelo Evangelho, era transformada, deixando-lhe
(apesar de suas características próprias) uma
espécie de “selo”, que seria reconhecível
para qualquer cristão que entrasse em contato com
ela (“Os que se batizaram em Cristo revestiram-se
de Cristo: já não há judeu nem grego;
nem escravo nem livre; nem homem nem mulher, pois todos vós
sois um só em Cristo Jesus”, Gal 3, 28-29).
A partir deste movimento em direção à universalidade
do Evangelho, cada uma das novas comunidades cristãs,
sem deixar seu contexto cultural, foi experimentando o Deus
de Jesus como acessível a eles, como alguém
que desejava estabelecer uma relação com eles,
em seu próprio idioma e através de seus próprios
referenciais de sentido. Isto se concretizou finalmente com
o nascimento e a consolidação de Igrejas locais
que tinham suas raízes na cultura originária
de seus membros. E este encontro com a Boa Notícia,
por sua vez, serviu de veículo de transformação
para estas culturas, levando-as a uma renovação
a partir de dentro.
Utilizando nosso marco teórico de referência, poderíamos
dizer que, através de uma mistagogia cristã,
os missionários bem-sucedidos permitiram às
culturas receptoras ter acesso à experiência
fundante própria do cristianismo, e esta, uma vez
experimentada, converteu-se em semente de uma nova cultura
cristã, encarnada nas expressões
próprias da cultura receptora. Porém, para
dizer que uma inculturação foi bem-sucedida,
seria preciso provar que foi fiel à mensagem central
cristã e fiel à identidade cultural que a
acolhia. Isto, é claro, na medida do possível,
visto que sempre havia elementos próprios
das culturas destinatárias (em sua cosmovisão
e ethos), que simplesmente não eram compatíveis
com a experiência fundante cristã.
Nestes casos, o encontro bem-sucedido com o cristianismo
trouxe como consequência transformações
com relação aos universos de sentido anteriores:
uma nova cosmovisão e um novo ethos.
Isto quer dizer que o encontro da fé cristã com
as novas culturas supôs um encontro de sistemas religiosos
diferentes, alguns mais semelhantes à experiência
cristã que outros, criando toda uma gama de possibilidades.
Em algumas ocasiões, sobretudo no caso de conversões
forçadas, fruto da conquista violenta, a evangelização
se realizou prescindindo das características das culturas
destinatárias, avassalando-as, debilitando-as e, inclusive
em alguns casos, fazendo-as desaparecer. É o que se
costuma chamar de aculturação. No outro extremo
estão as experiências em que a transmissão
do Evangelho foi muito superficial (nunca chegou a suscitar
a experiência fundante própria da fé cristã);
por isso, as culturas receptoras, se bem que puderam denominar-se
de cristãs, não foram transformadas por este
encontro, mantendo intactos sua cosmovisão e seu ethos.
O principal perigo sempre foram os extremos: por
um lado, igualar a fé cristã a uma forma
cultural particular de expressá-la, excluindo outras
possibilidades; por outro lado, a atitude culturalista
que considera que o valor fundamental é o respeito
radical à cultura, o que levaria a temer “contaminá-la” com
referências cristãs que lhe seriam alheias. O
ideal é favorecer um diálogo entre a experiência
fundante da fé cristã e todas as culturas
possíveis, sob a premissa de que
este encontro será mutuamente benéfico.
A prática do diálogo interreligioso e intercultural
trouxe como consequência a conclusão de que,
muito embora a Realidade Última (que para nós,
cristãos, é Deus mediado por Cristo) seja transcultural
(para além de qualquer expressão cultural que
pretenda transmiti-la), sempre se manifesta dentro de um
referencial cultural concreto.
1. Para entender o significado teológico
de inculturação
Desde o princípio da história humana, as culturas
estiveram interagindo umas com as outras, com cosmovisões
e sistemas de significado alternativos e, em algumas ocasiões,
contraditórios. Em geral, isto traz como consequência
uma influência mútua, voltando-se algumas culturas
para outras variáveis importantes em seus respectivos
processos de evolução. A natureza destes "encontros" é diversificada.
Podem ser pacíficos ou violentos; superficiais ou
profundos; momentâneos ou duradouros. E é claro
que suas consequências (desde as mínimas até as
radicais) também são diversas.
Agora nos centraremos no tipo particular de interação
cultural que chamamos inculturação. Trataremos
de explicitar seu significado, processo, dificuldades e possibilidades. Inculturação é mais
um termo teológico que antropológico, embora
use conceitos e visões da antropologia e outras ciências
sociais. A idéia de inculturação
nasceu em círculos missionários cristãos,
entre pessoas versadas no ministério de levar a mensagem
cristã a culturas diferentes. Estes missionários
haviam experimentado as dificuldades da comunicação
intercultural. Como já explicitamos, por um lado sentiam
a necessidade de compartilhar uma experiência de Deus
vivida como positiva e transformadora. Por outro lado, estavam
os "destinatários" desta mensagem, com
seu próprio sistema de significados, sua cosmovisão,
seu ethos e a religião que os unia e sustentava. Estes
mundos culturais eram apreciados como ricos e de grande valor,
como parte do patrimônio cultural e espiritual da humanidade.
Como podiam encontrar-se estes dois elementos em um espírito
de respeito e diálogo?
Especialmente durante o período colonialista, os
missionários cristãos não tinham consciência
de que, em geral, haviam assimilado sua própria experiência
de salvação de uma cultura, isto é,
a cultura na qual nasceram e foram formados. Sua fé foi
vivida, se processou e foi compartilhada através dos
símbolos próprios de suas tradições. É de
se esperar que, se viveram imersos nestes universos culturais,
não foram conscientes deles, como expressa o conto
hindu do peixe que não está consciente de
que se encontra na água. Não viam sua cultura
como uma a mais, com suas próprias particularidades,
mas como o referencial primário de “cultura”.
Eram as culturas com as quais se encontravam, as culturas
dos “pagãos”, que eram percebidas com
esquisitices e particularidades. Isto não significava
má intenção; era sentido como algo natural. O
que tornava esta situação perigosa para a evangelização
era que muito amiúde os missionários não
conseguiam distinguir entre o Evangelho e a "invólucro" cultural
na qual o haviam experimentado. Frequentemente sentiam
que sua fé cristã só podia ser vivida
totalmente em uma cultura similar à sua. Por
esta razão, buscaram mudar ao invés de conhecer,
apreciar e dialogar com as culturas que pretendiam evangelizar. Isto
provocou muita “violência cultural” (e
até física), gerando um grande prejuízo
para a propagação da Boa Notícia cristã.
Poderíamos dizer que se tornou uma “traição” à experiência
fundante da fé baseada no encontro com um Deus que é amor
incondicional e gratuito.
Em nosso documento de trabalho “Cultura e fé cristã”,
vimos que, nos séculos XVI e XVII, os pioneiros da
inculturação deram-se conta da necessidade
de entrarem em diálogo com suas culturas interlocutoras.
No entanto, estes pioneiros (Valignano, Ricci, De Nobili)
foram exceções, não a regra. O
crescimento da fé cristã nos últimos
quinhentos anos foi paralelo à expansão colonialista
(e amiúde violenta) da cultura européia ocidental. Primeiro
conquistaram através da força as áreas
territoriais que estavam sob a hegemonia destes grupos culturais;
depois se colonizaram e se reestruturaram segundo os modelos
europeus. Este modelo de expansão (a imposição
de culturas nacionais aos povos sob sua tutela) foi adotado
pela imensa maioria de missionários e era o modus
operandi "oficial" das Igrejas cristãs,
tanto católicas como protestantes, que sabotava a
prática missionária, tornando-a incapaz de
ser uma autêntica mistagogia cristã.
Com o surgimento mais ou menos recente de estudos críticos
sobre o fenômeno cultural, mostrou-se que cada uma
destas culturas avassaladas (e a dos conquistadores) aponta
para um "projeto de vida" baseado em uma experiência
particular de transcendência, expressa por sua religião.
Se alguém deseja comunicar valores transcendentais
através de fronteiras culturais, deve estar aberto
para entender a experiência de Deus própria
da cultura com a qual deseja “conversar”. Podemos
concluir que, em muitos dos casos onde a cruz chegou junto
com a espada, este processo não chegou a acontecer.
Os vencidos, para evitar a perseguição dos
que estavam no poder, buscaram formas de se adaptar ao “status
quo”; porém, não chegaram a ter acesso
ao que a fé cristã significa em sua mais profunda
identidade, ou seja, seu paradigma. Para evitar a superficialidade,
o processo de evangelização deve ser sensível à necessidade
de inculturação.
Inculturação não é só adaptação
aos elementos externos de outra cultura, nem é meramente
uma estratégia pastoral. É o resultado
da interação entre a identidade (e o patrimônio)
cultural de um povo, por um lado, e por outro a ação
evangelizadora de missionários que pertencem a outras
culturas. Interação que idealmente afeta
profunda e positivamente a ambos os interatuantes.
Este processo de inculturação é melhor
descrito por metáforas que nos levam a seu significado
teológico. No início, foi descrito
como “revestir” os princípios
evangélicos com uma roupagem cultural que os tornasse
significantes para seus destinatários.
Porém, logo se criticou esta metáfora, com
base em que a interação entre o Evangelho
e as culturas era um processo muito mais rico e profundo
que colocar e tirar uma "roupagem" que vista
como superficial e que parecia deixar intacta a cultura
do destinatário.
Outra imagem descrevia a inculturação
como o processo de plantar uma semente (o Evangelho) em
terras diferentes (as culturas). O problema é que
esta metáfora logo deu margem a que se concluísse
(e se julgasse “a piori”) que, havendo terras
(culturas) diferentes, cada uma tinha uma “fertilidade
evangélica” também diferente, o que
autorizava os missionários a discriminar as culturas
que eles consideraram “estéreis” à Boa
Notícia. Isto deu margem a uma justificativa pseudo-teológica
para o racismo e o etnocentrismo.
Sugeriu-se também o casamento como metáfora
para descrever a inculturação. Esta
metáfora transmite melhor o caráter correlativo,
dialogal, da interação entre o Evangelho
e as culturas, onde os dois são considerados em
uma relação de reciprocidade. No entanto,
esta opção ainda não expressa a profundidade
e a riqueza desta interação. De fato, alguns
autores consideram que seria mais apropriado que fosse
a descendência (os filhos), em lugar da própria
união, que poderiam definir melhor o processo de
inculturação.
Talvez a melhor analogia teológica, a mais
aceita atualmente, para descrever a inculturação,
seja o mistério da Encarnação. O
Evangelho é chamado a encarnar-se na cultura, assumindo-a
completamente e, ao mesmo tempo, transformando-a, levando-a
a sua plenitude, pela forma como a Palavra de
Deus redimiu nossa natureza humana, assumindo-a. Assim
como a Palavra de Deus permaneceu a mesma depois de tomar
nossa forma humana, o Evangelho permanece igual, mesmo
que assuma formas culturais diferentes. A maior parte dos
documentos recentes da Igreja costuma descrever a inculturação
nestes termos.
Por outro lado, a inculturação também
foi explicada através do mistério pascal
de morte e Ressurreição. Cada cultura é chamada
a viver um processo de conversão que inclui “morrer” para
tudo o que nela seja alheio ao Evangelho. Esta mesma cultura
ressuscitará (transformada) e crescerá, então,
até sua plenitude. É importante destacar
que as culturas, como criações humanas, têm
suas ambiguidades, limitações e estruturas
de pecado e poderes de morte .
Aproximar delas, a partir da fé cristã, supõe
discernimento, uma aproximação crítica
entre o Evangelho e as culturas, inclusive as culturas
(como as européias) que serviram tradicionalmente
como veículos da fé cristã.
Finalmente, devemos considerar outro referencial
teológico para a inculturação: a vinda
do Espírito Santo em Pentecostes. Em Pentecostes,
todas as culturas presentes ouviram a Boa Notícia
da salvação "em sua própria língua" (Atos
2, 8). Portanto, isto quer dizer que não tiveram
que aprender o idioma de Pedro para entender sua mensagem,
mas o Espírito Santo, através de Pedro, tornou-o
acessível a todos em seus idiomas próprios
(culturas). Desta forma, todas as pessoas presentes ouviram
o Evangelho e o entenderam, com base em sua própria
tradição.
Todas estas metáforas derivadas do mistério
da Redenção proveem uma inspiração
teológica para aprofundarmos sobre o processo de inculturação:
a Encarnação pode ser entendida como uma "condição";
o evento pascal (Paixão, Morte e Ressurreição)
como descritivo do processo de inculturação
e Pentecostes (o Espírito, que tudo renova) como sua
força dinamizadora. Em última instância, é o
Espírito de Deus que permite que a Igreja inculture
o Evangelho.
Nos últimos 30 anos, a Igreja Católica foi
desenvolvendo sua doutrina sobre a inculturação,
mesmo que a inculturação tenha sido parte de
sua prática desde o início. O Concílio
Vaticano II trouxe um espírito de diálogo,
ecumenismo, compreensão e apreço pela diversidade
humana. O Concílio sentiu o ímpeto de voltar às
origens da fé cristã, entender a fé como
mistagogia e buscar uma congruência entre métodos
e conteúdos de evangelização. A Igreja
deu-se conta da necessidade de fazer com que sua mensagem
fosse pertinente para o mundo ao qual sentia-se enviada.
A Igreja tinha que trasladar-se para o “coração” do
mundo, da vida humana. Isto significou, é claro,
que teria que inculturar-se.
Tendo realizado uma exploração geral dos documentos
da Igreja dos últimos quatro pontificados, que nos
falam de inculturação, encontramos que suas
conclusões parecem convergir em uma série de
elementos, sem os quais não podemos entender (nem
viver) o que a autêntica inculturação
significa:
- O Evangelho não pode ser igualado a
nenhuma cultura em particular. É independente
das culturas .
Melhor ainda, é transcultural. Porém, o
Reino de Deus proclamado pela Boa Notícia de Jesus
de Nazaré é vivido por mulheres e homens
que estão imersos em culturas. Por conseguinte,
as formulações históricas do Evangelho
utilizam elementos destas culturas. O Evangelho pode
penetrar nas culturas sem ficar sujeito a elas.
- Em seu contato com as culturas, a Igreja aprecia,
respeita e protege “todas as coisas boas que
estejam depositadas na mente e no coração
das pessoas, nos ritos e nas culturas destes povos, [para
que] não somente não desapareça,
mas cobre vigor, eleve-se e se aperfeiçoe, para
a glória de Deus" A
Igreja reconhece o valor das religiões tradicionais
(o coração de suas culturas): são
as expressões viventes da alma de cada povo em
particular, sustentadas por milhares de anos de busca
de Deus, "com grande sinceridade e retidão
de coração."
- A evangelização inculturada respeita
e renova uma cultura, levando-a à plenitude. O
processo de evangelização bem-sucedido
afeta as áreas mais centrais da cultura e da mente
humana, de forma que sejam transformadas e aperfeiçoadas
pela fé cristã .
- A Igreja aprendeu que a inculturação
requer tempo. É um processo profundo,
que abrange muitos elementos, visto que inclui
a vida toda da Igreja e todo o processo de evangelização:
teologia, liturgia, a vida da Igreja e suas estruturas .
- Através da inculturação,
a Igreja se encarna nas culturas e as introduz em sua
comunhão, em um processo de enriquecimento mútuo,
que ajuda a Igreja a conhecer e expressar melhor o mistério
de Cristo, como também a corrigir distorções
em sua forma de transmitir o Evangelho, ou seja, outra
vez a congruência entre conteúdo e forma .
- Está claro que, para que tenha lugar uma autêntica
evangelização, a Boa Notícia
deve ser percebida como resposta aos anseios fundamentais
das culturas destinatárias. É necessário
assegurar que o Evangelho se converta em Boa
Notícia
concreta na vida das pessoas a evangelizar:
compromisso com a paz, a justiça, os direitos humanos e promoção
humana. A prova de que a inculturação aconteceu
realmente é quando as pessoas se sentem cada vez
mais comprometidas com sua fé cristã, pois
a percebeu com maior clareza, através do olhar de
sua própria cultura, mudando a atitude interna,
até refletir a alegria do serviço .
- As Igrejas particulares são as principais
responsáveis pela inculturação,
assimilando a mensagem do Evangelho e transpondo-o, em
sua verdade, para uma linguagem inteligível para
sua cultura." A inculturação
deve comprometer todo o povo de Deus, não só os “especialistas”, dado
que os crentes refletem o Sensus Fidelium que
nunca se deve perder de vista. Todo o povo de Deus é chamado
a tornar-se sujeito (agente) da inculturação .
- É necessário encontrar um equilíbrio
entre a "encarnação" local
necessária do Evangelho e manter a comunhão
universal dentro da Igreja. Uma tensão
saudável entre estes polos (particularidade e
universalidade) assegurará um autêntico
processo de inculturação, guardando, ao
mesmo tempo, a catolicidade da Igreja .
Estes oito pontos nos proporcionam os princípios
fundamentais da doutrina da Igreja Católica com relação à inculturação.
Buscam oferecer uma inspiração que aponte para
a direção geral e forma do trabalho a ser realizado.
No entanto, cada processo de inculturação deve
ser desenvolvido e entendido de acordo com sua situação
concreta. É responsabilidade do crente aprofundar
sobre o que este processo significa para sua realidade concreta
de evangelização, quais são seus principais
desafios, como enfrentá-los, como fixar metas e como
avaliá-las.
Pablo
Suess, “El evangelio en las culturas: camino de
vida y esperanza”, Selecciones de Teología,
No. 133, enero-abril 1995, 33.
Paulo
VI, Evangelii Nuntiandi 22, CELAM, Puebla 407.
Vaticano
II, Lumen Gentium, 17.Juan Pablo II, Redemptoris
Missio, 53.
Evangelii
Nuntiandi, 19.; CELAM, MedellínVI
2 [5], e Santo Domingo 228; João Paulo II, Slavorum
Apostoli, 16, Ecclesia in Africa, 59;
and Ecclesia in Oceania, 16.
João
Paulo II Ecclesia in Africa, 62.
João
Paulo II, Orientale Lumen, 38.
Este
ponto foi tratado com especial cuidado pelo Magistério
das Igrejas Latinoamericanas nos documentos das Assembléias
gerais do CELAM em Medellín, Puebla, Santo Domingo
e Aparecida.
João
Paulo II, Ecclesia in Asia, 22.
Redemptoris
Missio, 63. Ver também : CELAM, Medellín
IV, 2 [8], Santo Domingo, 230b.
Ver Slavorum
Apostoli, 27 e Orientale Lumen, 40.
3. Para uma metodologia da inculturação
A fé cristã é entendida como uma mensagem
universal de salvação. Os cristãos experimentam
Cristo e seu Evangelho como a forma mais válida e
eficaz de encontrar Deus e, por esta razão, querem
compartilhar sua fé com outros. Podemos dizer que
o cristianismo é uma fé missionária
por natureza. Contudo, esta pretensão de universalidade
deve ser sustentada por seu êxito ao encarnar-se em
contextos culturais e situações históricas
diferentes, mantendo, ao mesmo tempo, uma comunhão
de fé acessível e aceitável por todos.
Não se deve esquecer que, para se expressar, as culturas
não necessitam do Evangelho. No entanto, o Evangelho
sempre requer mediações culturais para conseguir
encarnar-se. Sem uma expressão cultural, o Evangelho
não teria relevância nem significando para a
humanidade.
Ao longo da história humana, o Evangelho expressou-se
sempre dentro de uma cultura concreta. Por conseguinte, o
processo de evangelização sempre trouxe consigo
um encontro de culturas. O ideal da inculturação é que
este encontro seja um diálogo que beneficie a ambos
os participantes. Tem como pré-requisito que nenhum
dos participantes desse diálogo tem a compreensão
completa da Revelação. Os dois podem ganhar
com a encarnação do Evangelho em um novo contexto
cultural. Isto faz da inculturação um processo
de discernimento cultural e espiritual. Partindo de uma mesma
experiência de Deus, chega-se à sua expressão
através de referenciais simbólicos diferentes,
que ajudam a aproximar-se do mistério da Revelação
com maior profundidade.
3.1 O primeiro passo em uma evangelização
inculturada: a necessidade de conhecer a própria
cultura e sua relação com o Evangelho.
O primeiro passo no processo de inculturação
será dado pelos próprios evangelizadores, que
devem compreender que o Evangelho, tal como o conhecem, inclusive
a forma como o receberam e o experimentaram, está culturalmente
delimitado. A verdade transcendente, eterna e transcultural
encarnada em Cristo sempre se encontra presente nas formas
culturais de tradições particulares. No cristianismo,
a salvação sempre implica um encontro pessoal
com Jesus Cristo e sua mensagem. Através deste encontro,
o crente experimenta Deus como um Pai misericordioso e Cristo
como o paradigma do que a humanidade é chamada a ser.
Porém, as formas simbólicas através
das quais esta experiência comum se expressa variam
amplamente. Cada cultura entende e transmite sua história
da Redenção com seus próprios termos
culturais, que podem parecer estranhos e incompreensíveis
para outras tradições.
Para ser um bom evangelizador, deve-se ter o marco teórico
do conhecimento e análise da cultura e da importância
da religião dentro dela. Esta foi a temática
de nossa primeira conferência. Por isso, os agentes
pastorais devem receber, como parte de sua formação,
uma introdução às ciências da
cultura: antropologia, linguística, crítica
literária, semiologia etc. A importância que
a inculturação tem para o processo de evangelização
coloca efetivamente as ciências da cultura no nível
de colaboradoras com as disciplinas teológicas, no
trabalho de desenvolver modelos de Igreja e ministérios
apropriados a novos universos culturais .
Com estas ferramentas analíticas, os evangelizadores
podem entender sua própria cultura, um pré-requisito
para entender outras culturas. Algumas perguntas que devem
ser respondidas por esse tipo de análise são:
Quais são as necessidades experimentadas em sua própria
sociedade? Quais são os valores que lhe dão
sentido e como se expressam simbolicamente? Estes valores
têm ligação com o Evangelho? Este "inventário" das
coisas de maior valor para a própria cultura pode
ajudar a esclarecer nossa identidade religiosa. Constatar
que, normalmente, muitas destas "coisas importantes" não
têm nada a ver com o Evangelho mostra que todas as
identidades religiosas são seletivas e sincréticas. É especialmente
importante que os missionários tomem consciência
de qualquer preconceito cultural que possam ter. Esta não é uma
tarefa simples. Por exemplo: toda teologia pode ser considerada
uma "teologia local", influenciada por um contexto
particular, com sua cosmovisão, representações
simbólicas e valores, relações de poder
e interesses distintivos etc. A pretensão de considerar
uma teologia concreta como normativa e "transcultural",
evidenciando seus determinantes culturais, é, em si
mesma, uma forma de preconceito .
Este processo de introspecção permitirá aos
evangelizadores crescer em humildade e compreender que "a
força total do Evangelho" não pode ser
abarcada por nenhuma cultura particular, por mais séculos
de contato que tenha tido com a mensagem evangélica .
Todo anúncio humano do Evangelho é sempre uma
aproximação; os evangelizadores devem ser conscientes
disto. Não obstante, isto não deve representar
um obstáculo para a evangelização. A
história da Igreja demonstrou que o Evangelho pode
inculturar-se com êxito. Esta condição
de ser indefectivelmente “incompletas”, atribuídas
a todas as teologias e, portanto, sua necessidade de serem
complementadas, nos dá uma perspectiva correta do
mistério da Revelação e sua interpretação,
motivando-nos a inculturar a Boa Notícia em todas
as culturas. Só assim poderemos avançar no
processo de conhecer mais a fundo o que a revelação
definitiva de Cristo significa para a humanidade e, eventualmente,
corrigir erros e falsificações. Kirbi fala
sobre mais de 7.000 culturas diferentes, vivas em nosso tempo .
Em lugar de considerá-las um estorvo para a propagação
do Evangelho, devem ser valorizadas como outras tantas claves
hermenêuticas para entender o mistério infinito
de Deus.
No entanto, não podemos pressupor que todas as teologias
tenham a mesma capacidade de contribuir com maneiras diferentes
de entender o Evangelho, ou que todos os seus referenciais
de sentido possam ser considerados igualmente verdadeiros.
Deus oferece sua presença e verdade a todos, sem nenhum
favoritismo. Porém, a resposta à presença
de Deus é sempre condicionada pela própria
subjetividade humana .
Este é um imenso campo para o discernimento que sempre
implicará a adoção de critérios
de juízo. Para a Igreja Católica, os critérios
fundamentais para este discernimento são: as Sagradas
Escrituras, a Tradição viva da Igreja (com
seus dois elementos principais do Magistério e o sentido
de fé dos fiéis, o Sensus Fidelium).
Outras Igrejas cristãs têm seus próprios
parâmetros de discernimento. Em todos os casos, a crítica
cultural pode ajudar a evitar o etnocentrismo e a exclusão
de cosmovisões alternativas.
Os missionários, sobretudo os provenientes das culturas "ocidentais",
precisam submeter-se a um processo de "desarmamento
cultural", renunciando a toda atitude hegemônica
como as que foram usualmente desenvolvidas por estas tradições .
Isto lhes permitirá inserir-se em um processo de diálogo
em termos de equidade com outras culturas. A meta é a
construção de um cristianismo que reflita a
diversidade cultural e a riqueza de nosso mundo, sendo, ao
mesmo tempo, autenticamente universal e Católico,
transmitindo, através de sua atitude dialogal, humilde
e serviçal, os conteúdos centrais da experiência
fundante cristã.
A meta deste primeiro passo no processo de inculturação é permitir
aos evangelizadores entender a "matriz cultural" de
toda experiência de fé, incluindo a sua. Começar
com o estudo de uma cultura familiar facilita o processo.
Esta habilidade, uma vez aprendida, pode ser aplicada à aproximação
a outras culturas e à transmissão de conteúdos
(como a Boa Notícia), através de fronteiras
culturais.
3.2 “Conhecer o outro” é o passo
seguinte no processo de inculturação
Cruzar as fronteiras culturais nos faz compreender a diversidade
das organizações sociais humanas. Cada cultura
desenvolveu sua própria aproximação à vida,
com seus símbolos, sistemas de valor e avaliação
(ethos), sua cosmovisão e os sistemas religiosos que
os sustentam. A comunicação entre estas tradições
diferentes pode ser difícil. Para permitir um diálogo
frutífero, é necessário um processo
de tradução (decodificação e
re-codificação de símbolos, conceitos,
costumes, atitudes morais etc.). Nesta tarefa, as ciências
da cultura proporcionam uma ajuda inestimável. Ajudam
a interpretar o sistema simbólico usado em cada cultura,
tornando seu significado acessível aos "forasteiros” (ou
seja, aqueles provenientes de outras culturas).
Normalmente, este processo de interpretação
inicia com o contato entre o "forasteiro" (que
pode ser o evangelizador) e os membros da cultura interlocutora.
Espera-se da parte do evangelizador uma atitude de abertura
respeitosa para com os "outros". Sem dúvida,
no princípio é de fundamental importância
aprender o idioma do grupo interlocutor. Isto permitirá ao
evangelizador estabelecer um nível básico de
comunicação. Um idioma (especialmente sua estrutura)
pode proporcionar um acesso privilegiado à cosmovisão
de determinado grupo.
Porém, aprender o idioma não é suficiente,
ainda que seja indispensável. Os próximos passos
colocam o evangelizador em um contato mais íntimo
com a cultura à qual chega, com o "outro".
No início, o "forasteiro" vive um período
de fascinação pelo grupo receptor. Tudo parece
novo e interessante. Este período é descrito
como "lua de mel", em que o interesse pelo desconhecido
e o espírito de aventura parecem fazer adormecer as
tensões criadas pelo fato de viver em um ambiente
cultural diferente do seu.
Quando a primeira fascinação pelos novos ambientes
vai se diluindo, o missionário começa a sentir
verdadeiramente as diferenças culturais. Isto pode
gerar conflitos e tensão. Nós, seres humanos,
tendemos a ser etnocêntricos e isto é natural.
Nossa identidade, construída dentro de uma cultura
particular, com sua cosmovisão, valores e ferramentas
para enfrentar a realidade, pode sentir-se ameaçada
ao encontrar-se com identidades culturais alternativas (e às
vezes contraditórias). Estas cosmovisões diferentes
questionam a eficácia de nossa cultura como a forma
mais “correta” de explicar a realidade e "viver" nela.
Esta divergência pode ser percebida como uma ameaça
a nossa identidade, particularmente quando nos encontramos
rodeados de pessoas que não estão de acordo
com o que nos parece fundamental. Inclusive pode ser percebida
inconscientemente como uma agressão pessoal.
Esta fase do processo de inculturação é de
suma importância. Pode ser vivida como uma oportunidade
de vivenciar e constatar a diversidade humana e a alteridade
como riqueza. Viver este processo com um espírito
de humildade ajuda-nos a considerar nossa cultura e suas
concreções sob uma perspectiva apropriada,
permitindo-nos iniciar um verdadeiro diálogo com nossos
interlocutores.
No entanto, também é um momento de perigo.
Há duas possíveis deturpações
nesta conjuntura. As duas implicam dois extremos pouco realistas
na forma de considerar as culturas diferentes. No aspecto
aparentemente afirmativo, encontramos o chamado “utopismo”,
que é uma visão idealizada (e falsa) do "outro",
em que todos os aspectos de sua cultura são considerados
positivos (e, em geral, melhores que os da cultura própria) .
Este otimismo pouco realista implica uma falsificação
da cultura receptora que, finalmente, impede um intercâmbio
cultural produtivo. O forasteiro não entra em diálogo
com um "outro" real, mas com construções
de sua fantasia (a síndrome do “buen salvaje”).
Aqueles que caem nesta armadilha, não têm interesse
em dialogar com as culturas enquanto tais, mas com sua visão
idealizada delas, que não é outra coisa, senão
uma projeção de si mesmos.
No outro lado do espectro, encontramos o extremo negativo
do "racismo". Neste caso, todos os aspectos da "outra" cultura
são considerados desprezíveis. Novamente, este é um
caso de falsificação do interlocutor, no qual
o forasteiro projeta sobre a cultura receptora seus próprios
problemas de identidade e valorização cultural.
Também neste caso o diálogo fica truncado.
Quando o "visitante" ultrapassa esta fase com êxito,
sem cair nas armadilhas que acabamos de descrever, chega
o momento de fazer uma consideração imparcial
dos dois sistemas culturais (o próprio e o que se
encontrou), descobrindo as diferenças entre eles e
a natureza destas diferenças (superficiais, profundas,
contraditórias, complementares etc.) A meta é aumentar
o conhecimento e a apreciação do "outro",
nossa compreensão, aceitação e respeito.
O ideal é entender como a cultura interlocutora explicita
e resolve suas questões mais importantes (necessidades,
esperanças, medos, aversões, conflitos etc.)
e como as expressam simbolicamente. Para isso, nos pode ajudar
o que definimos em nossa primeira palestra como uma “etnografia
religiosa”. Só então podemos considerar
que estamos entrando em um diálogo intercultural.
Esta praxis de encontrar-se com o "outro" e preparar-se
para o diálogo é em si mesma uma experiência
de conversão. Traz consigo o que chamamos de "deslocamento
cultural ." O "outro" é aceito
em sua identidade, que não é definida em função
da identidade do evangelizador. Se este continua avançando
neste processo até apropriar-se dos sofrimentos e
esperanças de sua cultura anfitriã, seu anúncio
da Boa Notícia será mais significativo para
seus interlocutores.
3.3 O diálogo, núcleo do processo
de inculturação.
O autêntico encontro com o "outro", estabelecendo
assim uma boa comunicação, é simplesmente
um pré-requisito para o processo de construir o diálogo. É precisamente
através do diálogo que os evangelizadores podem
compartilhar sua fé com a cultura receptora. Entretanto,
não é qualquer intercâmbio que pode ser
considerado diálogo intercultural. Há algumas
condições necessárias para possibilitar
um intercâmbio frutífero de idéias através
de fronteiras culturais.
Vimos em nossa primeira palestra que o propósito
central da aproximação semiótica à cultura é ajudar-nos
a ter acesso ao mundo conceitual de outras culturas que,
por sua vez, nos permita "conversar" com elas.
Esta aproximação "interativa" requer
de nossa parte abertura e respeito por nossos interlocutores.
Abertura que nos permitirá escutar o que eles realmente
têm a dizer, esforçando-nos sempre para entender
sua perspectiva e experiência de vida. Respeito para
reconhecer suas contribuições com seu valor
intrínseco, sem tentar adaptá-las a nossos
parâmetros aceitáveis. Devemos evitar os extremos
de considerar tais contribuições como falsas,
em princípio, ou pensar que “os conhecemos melhor
do que eles mesmos.”
O pluralismo cultural faz parte da condição
humana; o imenso número de sistemas culturais o demonstra.
Este pluralismo cultural pode contribuir para uma compreensão
mais completa da realidade e do mistério de Deus.
Através do diálogo, vão surgindo novas
pistas para interpretar a Revelação de Deus.
Este diálogo também nos coloca em contato com
a ação de Deus em outras culturas. Por conseguinte,
devemos nos aproximar deste exercício com um espírito
de reverência para com a presença de Deus em
cada cultura. O diálogo nos permite uma aproximação
da visão da realidade Última que Deus concedeu
como dom a cada tradição cultural.
A busca da verdade é a única meta possível
para um diálogo intercultural honesto. Esta não é uma
tarefa simples. A verdade é uma categoria dinâmica; nenhuma
pessoa ou sociedade pode pretender ter pleno acesso a ela.
Precisamente porque Deus quis dar algo de si a todos, a verdade
não é posse exclusiva ou privilegiada de nenhuma
cultura. Em alguns documentos que tratam da inculturação
aparece uma atitude de respeito pelas culturas, mas, ao mesmo
tempo, de suspeita, ou talvez até de desprezo pelas
religiões que as sustentam. Não obstante, “suprimi-las [as
outras religiões] seria equivalente a apagar ou
anular uma presença real, [a presença
real] de Deus no mundo.” Contudo,
se alguém se sente atraído pelo compromisso
do evangelizador com Cristo e seu Evangelho, isto se deve à ação
de Deus, ao invés de ser o resultado de uma “conversão” programada.
A experiência nos mostrou que podemos nos aproximar
mais da verdade através da discussão e da divergência
do que através de um acordo superficial. Daí a
importância de fortalecer o diálogo e a interculturalidade
como uma atitude de vida e sua inclusão na formação
de agentes pastorais.
Michael Amaladoss propõe quatro níveis de
diálogo, cada um com sua própria especificidade .
Primeiro considera um diálogo de vida, de interação
diária. Isto seria similar ao encontro com o “outro”,
ao qual já nos referimos. É através
da partilha de vida com membros das culturas receptoras,
conhecendo e compartilhando suas esperanças e medos,
suas alegrias e sofrimentos, que aprendemos a entendê-los
e a nos comunicarmos com eles, conquistando a autoridade
moral para nos apresentarmos como interlocutores legítimos.
No processo de evangelização, este pode ser
o tipo mais importante de diálogo a empreender. Missionários
que viveram inseridos em comunidades populares e indígenas
foram motivados por esta intuição. Este diálogo
de vida pode precisar de muitos anos, antes de dar o próximo
passo.
Normalmente, o diálogo de vida seria considerado
como um pré-requisito para as outras formas de diálogo.
Entretanto, encontramos outros tipos de diálogo. Um
diálogo também importante é o de "especialistas" na
doutrina de cada grupo envolvido, que se encontram para compartilhar
suas tradições e enriquecer-se mutuamente.
Isto é o que Amaladoss define como diálogo
de intercâmbio intelectual.
Outras formas de diálogo podem ser realizadas simultânea
ou separadamente. Amaladoss considera fundamental o que chama
de diálogo de experiência espiritual. De fato,
este tipo de intercâmbios baseados mais na “experiência
de Deus” (experiência fundante) que, nas doutrinas
religiosas, provou ser especialmente frutífero. Um
especialista neste campo, Wayne Teasdale, disse, a esse respeito,
que, no nível místico, as religiões
têm muito para compartilhar, enquanto que, no nível “acadêmico-doutrinal”,
as palavras e conceitos se convertem em verdadeiros obstáculos
para a comunicação interreligiosa .
Finalmente, o quarto tipo de diálogo proposto por
Amaladoss é chamado de “diálogo como
colaboração para a promoção humana”.
Uma forma privilegiada de dar testemunho da fé cristã é unir-se
aos esforços em prol de uma sociedade e um mundo mais
justo e equitativo.
Todas estas formas diversificadas de diálogo podem
ser casuais, com quase nenhuma estrutura ou metodologia,
ou organizadas, com vários graus de formalidade. O
processo de evangelização pode ganhar muito
com ambas as aproximações, cada uma contribuindo,
através de sua riqueza particular, com o processo
de inculturação.
4. A modo de conclusão:
o papel da Comunidade no processo de inculturação.
Esta reflexão não estaria completa, se não
enfatizasse a importância da Comunidade no processo
da inculturação. Ao longo deste artigo, fomos
descrevendo os pré-requisitos necessários para
a encarnação genuína do Evangelho em
uma cultura. No entanto, as evidências nos mostram
que "só as pessoas versadas em sua própria
cultura são capazes de inculturar e integrar o Evangelho
a ela ".
Os missionários devem reconhecer que nunca conhecerão
(experimentarão) a cultura de seus interlocutores
como as pessoas que nasceram e cresceram nelas. O papel do
evangelizador é fazer com que a experiência
cristã de Deus seja acessível à cultura
dos destinatários. Porém, este é somente
o princípio da caminhada. O Evangelho deve interagir
com a cultura, com a vida das pessoas e com a Comunidade
de fé.
A história nos ensina que o Evangelho é um
fator de transformação cultural. Quando o Evangelho
não desafia e renova uma sociedade, provavelmente
não foi inculturado. Uma vez que a experiência
cristã de Deus chegou a uma sociedade, questiona os
elementos da cosmovisão da cultura que contradizem
os valores do Evangelho. Esta “conversão” só pode
acontecer nos corações e mentes das pessoas
que conhecem a cosmovisão de sua cultura, com sua
expressão simbólica, e que, ao mesmo tempo,
experimentaram o encontro com o Deus de Jesus Cristo. Permanecendo
em sua cultura, estes novos cristãos são críticos
de todos os elementos, em sua sociedade, que são contrários
ao Deus que experimentaram. De forma que os sujeitos, os
promotores ativos desta fase final e definitiva do processo,
são as Comunidades de fé enraizadas em suas
respectivas culturas.
Estas Comunidades se constituem em "Igrejas locais",
reconhecidas como essenciais no processo de evangelização.
Crendo no mesmo Evangelho de todos os cristãos, o
percebem, experimentam, expressam e celebram através
de formas diversas. Assim foi que evoluíram todas
as tradições dentro da Igreja: latina, bizantina,
semita, eslava etc. Ultimamente, depois de muitos séculos
de acomodação, a Igreja Católica deu
passos importantes no sentido de reconhecer a necessidade
da inculturação, e sua catequese atual o demonstra.
No entanto, há um longo caminho pela frente. São
necessárias ações pastorais concretas,
que reconheçam a diversidade cultural como fundamental
para a reflexão teológica, a liturgia, a estrutura
da Igreja, os ministérios etc. A catolicidade da Igreja
não pode continuar sendo construída com base
em uma eclesiologia da uniformidade. A Igreja universal é chamada
a ser enriquecida pelas novas vozes das Igrejas locais.
Com estas reflexões, terminamos mais esta trajetória,
na busca de oferecer um marco teórico para as discussões,
discernimentos e atividades dos próximos dias. Esperamos
ter conseguido oferecer uma aproximação prática
e útil ao fenômeno da cultura, sua relação
com a religião e a identidade pessoal e grupal, assim
como seu papel na transmissão da mensagem central da
Boa Notícia cristã: a irrupção
do Reino de Deus, como horizonte de sentido para a humani
3. Para uma metodologia da inculturação
A fé cristã é entendida como uma
mensagem universal de salvação. Os cristãos
experimentam Cristo e seu Evangelho como a forma mais válida
e eficaz de encontrar Deus e, por esta razão, querem
compartilhar sua fé com outros. Podemos dizer que
o cristianismo é uma fé missionária
por natureza. Contudo, esta pretensão de universalidade
deve ser sustentada por seu êxito ao encarnar-se
em contextos culturais e situações históricas
diferentes, mantendo, ao mesmo tempo, uma comunhão
de fé acessível e aceitável por todos.
Não se deve esquecer que, para se expressar, as
culturas não necessitam do Evangelho. No entanto,
o Evangelho sempre requer mediações culturais
para conseguir encarnar-se. Sem uma expressão cultural,
o Evangelho não teria relevância nem significando
para a humanidade.
Ao longo da história humana, o Evangelho expressou-se
sempre dentro de uma cultura concreta. Por conseguinte,
o processo de evangelização sempre trouxe
consigo um encontro de culturas. O ideal da inculturação é que
este encontro seja um diálogo que beneficie a ambos
os participantes. Tem como pré-requisito que nenhum
dos participantes desse diálogo tem a compreensão
completa da Revelação. Os dois podem ganhar
com a encarnação do Evangelho em um novo
contexto cultural. Isto faz da inculturação
um processo de discernimento cultural e espiritual. Partindo
de uma mesma experiência de Deus, chega-se à sua
expressão através de referenciais simbólicos
diferentes, que ajudam a aproximar-se do mistério
da Revelação com maior profundidade.
3.1 O primeiro passo em uma evangelização
inculturada: a necessidade de conhecer a própria
cultura e sua relação com o Evangelho.
O primeiro passo no processo de inculturação
será dado pelos próprios evangelizadores,
que devem compreender que o Evangelho, tal como o conhecem,
inclusive a forma como o receberam e o experimentaram,
está culturalmente delimitado. A verdade transcendente,
eterna e transcultural encarnada em Cristo sempre se encontra
presente nas formas culturais de tradições
particulares. No cristianismo, a salvação
sempre implica um encontro pessoal com Jesus Cristo e sua
mensagem. Através deste encontro, o crente experimenta
Deus como um Pai misericordioso e Cristo como o paradigma
do que a humanidade é chamada a ser. Porém,
as formas simbólicas através das quais esta
experiência comum se expressa variam amplamente.
Cada cultura entende e transmite sua história da
Redenção com seus próprios termos
culturais, que podem parecer estranhos e incompreensíveis
para outras tradições.
Para ser um bom evangelizador, deve-se ter o marco teórico
do conhecimento e análise da cultura e da importância
da religião dentro dela. Esta foi a temática
de nossa primeira conferência. Por isso, os agentes
pastorais devem receber, como parte de sua formação,
uma introdução às ciências da
cultura: antropologia, linguística, crítica
literária, semiologia etc. A importância que
a inculturação tem para o processo de evangelização
coloca efetivamente as ciências da cultura no nível
de colaboradoras com as disciplinas teológicas,
no trabalho de desenvolver modelos de Igreja e ministérios
apropriados a novos universos culturais .
Com estas ferramentas analíticas, os evangelizadores
podem entender sua própria cultura, um pré-requisito
para entender outras culturas. Algumas perguntas que devem
ser respondidas por esse tipo de análise são:
Quais são as necessidades experimentadas em sua
própria sociedade? Quais são os valores que
lhe dão sentido e como se expressam simbolicamente?
Estes valores têm ligação com o Evangelho?
Este "inventário" das coisas de maior
valor para a própria cultura pode ajudar a esclarecer
nossa identidade religiosa. Constatar que, normalmente,
muitas destas "coisas importantes" não
têm nada a ver com o Evangelho mostra que todas as
identidades religiosas são seletivas e sincréticas. É especialmente
importante que os missionários tomem consciência
de qualquer preconceito cultural que possam ter. Esta não é uma
tarefa simples. Por exemplo: toda teologia pode ser considerada
uma "teologia local", influenciada por um contexto
particular, com sua cosmovisão, representações
simbólicas e valores, relações de
poder e interesses distintivos etc. A pretensão
de considerar uma teologia concreta como normativa e "transcultural",
evidenciando seus determinantes culturais, é, em
si mesma, uma forma de preconceito .
Este processo de introspecção permitirá aos
evangelizadores crescer em humildade e compreender que "a
força total do Evangelho" não pode ser
abarcada por nenhuma cultura particular, por mais séculos
de contato que tenha tido com a mensagem evangélica .
Todo anúncio humano do Evangelho é sempre
uma aproximação; os evangelizadores devem
ser conscientes disto. Não obstante, isto não
deve representar um obstáculo para a evangelização.
A história da Igreja demonstrou que o Evangelho
pode inculturar-se com êxito. Esta condição
de ser indefectivelmente “incompletas”, atribuídas
a todas as teologias e, portanto, sua necessidade de serem
complementadas, nos dá uma perspectiva correta do
mistério da Revelação e sua interpretação,
motivando-nos a inculturar a Boa Notícia em todas
as culturas. Só assim poderemos avançar
no processo de conhecer mais a fundo o que a revelação
definitiva de Cristo significa para a humanidade e, eventualmente,
corrigir erros e falsificações. Kirbi fala
sobre mais de 7.000 culturas diferentes, vivas em nosso
tempo . Em
lugar de considerá-las um estorvo para a propagação
do Evangelho, devem ser valorizadas como outras tantas
claves hermenêuticas para entender o mistério
infinito de Deus.
No entanto, não podemos pressupor que todas as
teologias tenham a mesma capacidade de contribuir com maneiras
diferentes de entender o Evangelho, ou que todos os seus
referenciais de sentido possam ser considerados igualmente
verdadeiros. Deus oferece sua presença e verdade
a todos, sem nenhum favoritismo. Porém, a resposta à presença
de Deus é sempre condicionada pela própria
subjetividade humana .
Este é um imenso campo para o discernimento que
sempre implicará a adoção de critérios
de juízo. Para a Igreja Católica, os critérios
fundamentais para este discernimento são: as Sagradas
Escrituras, a Tradição viva da Igreja (com
seus dois elementos principais do Magistério e o
sentido de fé dos fiéis, o Sensus Fidelium).
Outras Igrejas cristãs têm seus próprios
parâmetros de discernimento. Em todos os casos, a
crítica cultural pode ajudar a evitar o etnocentrismo
e a exclusão de cosmovisões alternativas.
Os missionários, sobretudo os provenientes das
culturas "ocidentais", precisam submeter-se a
um processo de "desarmamento cultural", renunciando
a toda atitude hegemônica como as que foram usualmente
desenvolvidas por estas tradições .
Isto lhes permitirá inserir-se em um processo de
diálogo em termos de equidade com outras culturas.
A meta é a construção de um cristianismo
que reflita a diversidade cultural e a riqueza de nosso
mundo, sendo, ao mesmo tempo, autenticamente universal
e Católico, transmitindo, através de sua
atitude dialogal, humilde e serviçal, os conteúdos
centrais da experiência fundante cristã.
A meta deste primeiro passo no processo de inculturação é permitir
aos evangelizadores entender a "matriz cultural" de
toda experiência de fé, incluindo a sua. Começar
com o estudo de uma cultura familiar facilita o processo.
Esta habilidade, uma vez aprendida, pode ser aplicada à aproximação
a outras culturas e à transmissão de conteúdos
(como a Boa Notícia), através de fronteiras
culturais.
3.2 “Conhecer o outro” é o
passo seguinte no processo de inculturação
Cruzar as fronteiras culturais nos faz compreender a diversidade
das organizações sociais humanas. Cada cultura
desenvolveu sua própria aproximação à vida,
com seus símbolos, sistemas de valor e avaliação
(ethos), sua cosmovisão e os sistemas religiosos
que os sustentam. A comunicação entre estas
tradições diferentes pode ser difícil.
Para permitir um diálogo frutífero, é necessário
um processo de tradução (decodificação
e re-codificação de símbolos, conceitos,
costumes, atitudes morais etc.). Nesta tarefa, as ciências
da cultura proporcionam uma ajuda inestimável. Ajudam
a interpretar o sistema simbólico usado em cada
cultura, tornando seu significado acessível aos "forasteiros” (ou
seja, aqueles provenientes de outras culturas).
Normalmente, este processo de interpretação
inicia com o contato entre o "forasteiro" (que
pode ser o evangelizador) e os membros da cultura interlocutora.
Espera-se da parte do evangelizador uma atitude de abertura
respeitosa para com os "outros". Sem dúvida,
no princípio é de fundamental importância
aprender o idioma do grupo interlocutor. Isto permitirá ao
evangelizador estabelecer um nível básico
de comunicação. Um idioma (especialmente
sua estrutura) pode proporcionar um acesso privilegiado à cosmovisão
de determinado grupo.
Porém, aprender o idioma não é suficiente,
ainda que seja indispensável. Os próximos
passos colocam o evangelizador em um contato mais íntimo
com a cultura à qual chega, com o "outro".
No início, o "forasteiro" vive um período
de fascinação pelo grupo receptor. Tudo parece
novo e interessante. Este período é descrito
como "lua de mel", em que o interesse pelo desconhecido
e o espírito de aventura parecem fazer adormecer
as tensões criadas pelo fato de viver em um ambiente
cultural diferente do seu.
Quando a primeira fascinação pelos novos
ambientes vai se diluindo, o missionário começa
a sentir verdadeiramente as diferenças culturais.
Isto pode gerar conflitos e tensão. Nós,
seres humanos, tendemos a ser etnocêntricos e isto é natural.
Nossa identidade, construída dentro de uma cultura
particular, com sua cosmovisão, valores e ferramentas
para enfrentar a realidade, pode sentir-se ameaçada
ao encontrar-se com identidades culturais alternativas
(e às vezes contraditórias). Estas cosmovisões
diferentes questionam a eficácia de nossa cultura
como a forma mais “correta” de explicar a realidade
e "viver" nela. Esta divergência pode ser
percebida como uma ameaça a nossa identidade, particularmente
quando nos encontramos rodeados de pessoas que não
estão de acordo com o que nos parece fundamental.
Inclusive pode ser percebida inconscientemente como uma
agressão pessoal.
Esta fase do processo de inculturação é de
suma importância. Pode ser vivida como uma oportunidade
de vivenciar e constatar a diversidade humana e a alteridade
como riqueza. Viver este processo com um espírito
de humildade ajuda-nos a considerar nossa cultura e suas
concreções sob uma perspectiva apropriada,
permitindo-nos iniciar um verdadeiro diálogo com
nossos interlocutores.
No entanto, também é um momento de perigo.
Há duas possíveis deturpações
nesta conjuntura. As duas implicam dois extremos pouco
realistas na forma de considerar as culturas diferentes.
No aspecto aparentemente afirmativo, encontramos o chamado “utopismo”,
que é uma visão idealizada (e falsa) do "outro",
em que todos os aspectos de sua cultura são considerados
positivos (e, em geral, melhores que os da cultura própria) .
Este otimismo pouco realista implica uma falsificação
da cultura receptora que, finalmente, impede um intercâmbio
cultural produtivo. O forasteiro não entra em diálogo
com um "outro" real, mas com construções
de sua fantasia (a síndrome do “buen salvaje”).
Aqueles que caem nesta armadilha, não têm
interesse em dialogar com as culturas enquanto tais, mas
com sua visão idealizada delas, que não é outra
coisa, senão uma projeção de si mesmos.
No outro lado do espectro, encontramos o extremo negativo
do "racismo". Neste caso, todos os aspectos da "outra" cultura
são considerados desprezíveis. Novamente,
este é um caso de falsificação do
interlocutor, no qual o forasteiro projeta sobre a cultura
receptora seus próprios problemas de identidade
e valorização cultural. Também neste
caso o diálogo fica truncado.
Quando o "visitante" ultrapassa esta fase com êxito,
sem cair nas armadilhas que acabamos de descrever, chega
o momento de fazer uma consideração imparcial
dos dois sistemas culturais (o próprio e o que se
encontrou), descobrindo as diferenças entre eles
e a natureza destas diferenças (superficiais, profundas,
contraditórias, complementares etc.) A meta é aumentar
o conhecimento e a apreciação do "outro",
nossa compreensão, aceitação e respeito.
O ideal é entender como a cultura interlocutora
explicita e resolve suas questões mais importantes
(necessidades, esperanças, medos, aversões,
conflitos etc.) e como as expressam simbolicamente. Para
isso, nos pode ajudar o que definimos em nossa primeira
palestra como uma “etnografia religiosa”. Só então
podemos considerar que estamos entrando em um diálogo
intercultural.
Esta praxis de encontrar-se com o "outro" e
preparar-se para o diálogo é em si mesma
uma experiência de conversão. Traz consigo
o que chamamos de "deslocamento cultural ." O "outro" é aceito
em sua identidade, que não é definida em
função da identidade do evangelizador. Se
este continua avançando neste processo até apropriar-se
dos sofrimentos e esperanças de sua cultura anfitriã,
seu anúncio da Boa Notícia será mais
significativo para seus interlocutores.
3.3 O diálogo, núcleo do processo
de inculturação.
O autêntico encontro com o "outro", estabelecendo
assim uma boa comunicação, é simplesmente
um pré-requisito para o processo de construir o
diálogo. É precisamente através do
diálogo que os evangelizadores podem compartilhar
sua fé com a cultura receptora. Entretanto, não é qualquer
intercâmbio que pode ser considerado diálogo
intercultural. Há algumas condições
necessárias para possibilitar um intercâmbio
frutífero de idéias através de fronteiras
culturais.
Vimos em nossa primeira palestra que o propósito
central da aproximação semiótica à cultura é ajudar-nos
a ter acesso ao mundo conceitual de outras culturas que,
por sua vez, nos permita "conversar" com elas.
Esta aproximação "interativa" requer
de nossa parte abertura e respeito por nossos interlocutores.
Abertura que nos permitirá escutar o que eles realmente
têm a dizer, esforçando-nos sempre para entender
sua perspectiva e experiência de vida. Respeito para
reconhecer suas contribuições com seu valor
intrínseco, sem tentar adaptá-las a nossos
parâmetros aceitáveis. Devemos evitar os extremos
de considerar tais contribuições como falsas,
em princípio, ou pensar que “os conhecemos
melhor do que eles mesmos.”
O pluralismo cultural faz parte da condição
humana; o imenso número de sistemas culturais o
demonstra. Este pluralismo cultural pode contribuir para
uma compreensão mais completa da realidade e do
mistério de Deus. Através do diálogo,
vão surgindo novas pistas para interpretar a Revelação
de Deus. Este diálogo também nos coloca em
contato com a ação de Deus em outras culturas.
Por conseguinte, devemos nos aproximar deste exercício
com um espírito de reverência para com a presença
de Deus em cada cultura. O diálogo nos permite uma
aproximação da visão da realidade Última
que Deus concedeu como dom a cada tradição
cultural.
A busca da verdade é a única meta possível
para um diálogo intercultural honesto. Esta não é uma
tarefa simples. A verdade é uma categoria dinâmica; nenhuma
pessoa ou sociedade pode pretender ter pleno acesso a ela.
Precisamente porque Deus quis dar algo de si a todos, a
verdade não é posse exclusiva ou privilegiada
de nenhuma cultura. Em alguns documentos que tratam da
inculturação aparece uma atitude de respeito
pelas culturas, mas, ao mesmo tempo, de suspeita, ou talvez
até de desprezo pelas religiões que as sustentam.
Não obstante, “suprimi-las [as outras
religiões] seria equivalente a apagar ou anular
uma presença real, [a presença real] de
Deus no mundo.” Contudo,
se alguém se sente atraído pelo compromisso
do evangelizador com Cristo e seu Evangelho, isto se deve à ação
de Deus, ao invés de ser o resultado de uma “conversão” programada.
A experiência nos mostrou que podemos nos aproximar
mais da verdade através da discussão e da
divergência do que através de um acordo superficial.
Daí a importância de fortalecer o diálogo
e a interculturalidade como uma atitude de vida e sua inclusão
na formação de agentes pastorais.
Michael Amaladoss propõe quatro níveis de
diálogo, cada um com sua própria especificidade .
Primeiro considera um diálogo de vida, de interação
diária. Isto seria similar ao encontro com o “outro”,
ao qual já nos referimos. É através
da partilha de vida com membros das culturas receptoras,
conhecendo e compartilhando suas esperanças e medos,
suas alegrias e sofrimentos, que aprendemos a entendê-los
e a nos comunicarmos com eles, conquistando a autoridade
moral para nos apresentarmos como interlocutores legítimos.
No processo de evangelização, este pode ser
o tipo mais importante de diálogo a empreender.
Missionários que viveram inseridos em comunidades
populares e indígenas foram motivados por esta intuição.
Este diálogo de vida pode precisar de muitos anos,
antes de dar o próximo passo.
Normalmente, o diálogo de vida seria considerado
como um pré-requisito para as outras formas de diálogo.
Entretanto, encontramos outros tipos de diálogo.
Um diálogo também importante é o de "especialistas" na
doutrina de cada grupo envolvido, que se encontram para
compartilhar suas tradições e enriquecer-se
mutuamente. Isto é o que Amaladoss define como
diálogo de intercâmbio intelectual.
Outras formas de diálogo podem ser realizadas simultânea
ou separadamente. Amaladoss considera fundamental o que
chama de diálogo de experiência espiritual.
De fato, este tipo de intercâmbios baseados mais
na “experiência de Deus” (experiência
fundante) que, nas doutrinas religiosas, provou ser especialmente
frutífero. Um especialista neste campo, Wayne Teasdale,
disse, a esse respeito, que, no nível místico,
as religiões têm muito para compartilhar,
enquanto que, no nível “acadêmico-doutrinal”,
as palavras e conceitos se convertem em verdadeiros obstáculos
para a comunicação interreligiosa .
Finalmente, o quarto tipo de diálogo proposto por
Amaladoss é chamado de “diálogo como
colaboração para a promoção
humana”. Uma forma privilegiada de dar testemunho
da fé cristã é unir-se aos esforços
em prol de uma sociedade e um mundo mais justo e equitativo.
Todas estas formas diversificadas de diálogo podem
ser casuais, com quase nenhuma estrutura ou metodologia,
ou organizadas, com vários graus de formalidade.
O processo de evangelização pode ganhar muito
com ambas as aproximações, cada uma contribuindo,
através de sua riqueza particular, com o processo
de inculturação.
4. A modo de conclusão:
o papel da Comunidade no processo de inculturação.
Esta reflexão não estaria completa, se não
enfatizasse a importância da Comunidade no processo
da inculturação. Ao longo deste artigo, fomos
descrevendo os pré-requisitos necessários
para a encarnação genuína do Evangelho
em uma cultura. No entanto, as evidências nos mostram
que "só as pessoas versadas em sua própria
cultura são capazes de inculturar e integrar o Evangelho
a ela ".
Os missionários devem reconhecer que nunca conhecerão
(experimentarão) a cultura de seus interlocutores
como as pessoas que nasceram e cresceram nelas. O papel
do evangelizador é fazer com que a experiência
cristã de Deus seja acessível à cultura
dos destinatários. Porém, este é somente
o princípio da caminhada. O Evangelho deve interagir
com a cultura, com a vida das pessoas e com a Comunidade
de fé.
A história nos ensina que o Evangelho é um
fator de transformação cultural. Quando o
Evangelho não desafia e renova uma sociedade, provavelmente
não foi inculturado. Uma vez que a experiência
cristã de Deus chegou a uma sociedade, questiona
os elementos da cosmovisão da cultura que contradizem
os valores do Evangelho. Esta “conversão” só pode
acontecer nos corações e mentes das pessoas
que conhecem a cosmovisão de sua cultura, com sua
expressão simbólica, e que, ao mesmo tempo,
experimentaram o encontro com o Deus de Jesus Cristo. Permanecendo
em sua cultura, estes novos cristãos são
críticos de todos os elementos, em sua sociedade,
que são contrários ao Deus que experimentaram.
De forma que os sujeitos, os promotores ativos desta fase
final e definitiva do processo, são as Comunidades
de fé enraizadas em suas respectivas culturas.
Estas Comunidades se constituem em "Igrejas locais",
reconhecidas como essenciais no processo de evangelização.
Crendo no mesmo Evangelho de todos os cristãos,
o percebem, experimentam, expressam e celebram através
de formas diversas. Assim foi que evoluíram todas
as tradições dentro da Igreja: latina, bizantina,
semita, eslava etc. Ultimamente, depois de muitos séculos
de acomodação, a Igreja Católica deu
passos importantes no sentido de reconhecer a necessidade
da inculturação, e sua catequese atual o
demonstra. No entanto, há um longo caminho pela
frente. São necessárias ações
pastorais concretas, que reconheçam a diversidade
cultural como fundamental para a reflexão teológica,
a liturgia, a estrutura da Igreja, os ministérios
etc. A catolicidade da Igreja não pode continuar
sendo construída com base em uma eclesiologia da
uniformidade. A Igreja universal é chamada a ser
enriquecida pelas novas vozes das Igrejas locais.
Com estas reflexões, terminamos mais esta trajetória,
na busca de oferecer um marco teórico para as discussões,
discernimentos e atividades dos próximos dias. Esperamos
ter conseguido oferecer uma aproximação prática
e útil ao fenômeno da cultura, sua relação
com a religião e a identidade pessoal e grupal, assim
como seu papel na transmissão da mensagem central
da Boa Notícia cristã: a irrupção
do Reino de Deus, como horizonte de sentido para a humanide
Kirbi,
Jon P., “Language and Culture Learning IS Conversion...
IS Ministry”, Missiology: An International
Review, Vol. XXIII, No. 2, April 1995, 135.
Cf.
Menamparampil, Thomas, “El reto de las culturas”, Servicio
de Prensa para Religiosos y Religiosas (Madrid), abril-junio
1998, 18.
Cf.
Suess, Paulo, “O Evangelho nas culturas: caminho
de vida e esperança. Apontamentos para o V
Congresso Missionário Latino-Americano”, Perspectiva
Teológica, n. 25 (1993), 308.
Cf.
Kirbi, “Language and Culture Learning IS Conversion”,
135.
Torres
Queiruga, Andrés, “Cristianismo y Religiones: ‘Inreligionación’ y
cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1,
enero 1997, 7.
Cf.
Vitoria Cormenzana, Francisco Javier, “Diversidad
cultural y evangelio de los pobres”, Revista
Latinoamericana de Teología, XIV, No.
42, 1997, 275
Ver:Todorov,
Tzvetan, La conquista de América, el problema
del otro, Siglo XXI Editores, México
2001, 182-194.
Pablo
Suess, “El evangelio en las culturas: camino
de vida y esperanza”, Selecciones de Teología,
No. 133, 33-42
Torres
Queiruga, Andrés (1997) “Cristianismo
y Religiones: ‘Inreligionación’ y
cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1,
10-11.
Amaladoss,
Michael, “Dialogue and Mission”, Interview
in Columbans, [on line] <http://indigo.ie/~columban/amalad.htm> [accessed
23rd Novermber 2002];
Teasdale,
Wayne, “Interreligious Dialogue since Vatican
II”, Spirituality Today, Vol. 43,
No. 2, Summer 1991, 119-133.
Ver:
Maccise, Camilo, “New Prospects and Challenges
for Missions”, OCD General House 1998
y Thomas Menamparampil “El reto de las culturas”,
18.
Kirbi,
Jon P., “Language and Culture Learning IS Conversion...
IS Ministry”, Missiology: An International
Review, Vol. XXIII, No. 2, April 1995, 135.
Cf.
Menamparampil, Thomas, “El reto de las culturas”, Servicio
de Prensa para Religiosos y Religiosas (Madrid), abril-junio
1998, 18.
Cf.
Suess, Paulo, “O Evangelho nas culturas: caminho
de vida e esperança. Apontamentos para o V Congresso
Missionário Latino-Americano”, Perspectiva
Teológica, n. 25 (1993), 308.
Cf.
Kirbi, “Language and Culture Learning IS Conversion”,
135.
Torres
Queiruga, Andrés, “Cristianismo y Religiones: ‘Inreligionación’ y
cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1,
enero 1997, 7.
Cf.
Vitoria Cormenzana, Francisco Javier, “Diversidad
cultural y evangelio de los pobres”, Revista
Latinoamericana de Teología, XIV, No. 42,
1997, 275
Ver:Todorov,
Tzvetan, La conquista de América, el problema
del otro, Siglo XXI Editores, México 2001,
182-194.
Pablo
Suess, “El evangelio en las culturas: camino
de vida y esperanza”, Selecciones de Teología,
No. 133, 33-42
Torres
Queiruga, Andrés (1997) “Cristianismo
y Religiones: ‘Inreligionación’ y
cristianismo asimétrico“, Sal Terrae 85/1,
10-11.
Amaladoss,
Michael, “Dialogue and Mission”, Interview
in Columbans, [on line] <http://indigo.ie/~columban/amalad.htm> [accessed
23rd Novermber 2002];
Teasdale,
Wayne, “Interreligious Dialogue since Vatican
II”, Spirituality Today, Vol. 43, No.
2, Summer 1991, 119-133.
Ver:
Maccise, Camilo, “New Prospects and Challenges
for Missions”, OCD General House 1998 y
Thomas Menamparampil “El reto de las culturas”,
18.
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