EXPERIÊNCIA DE DEUS E RELIGIÃO
1. A religião como núcleo
da cultura. A experiência de Deus como núcleo
da religião
No artigo anterior, aproximamo-nos do fenômeno da
cultura e da religião como núcleo de identidade
deste universo de sentido. Entender a religião é entender
a cultura à qual serve de sustento. Dizíamos
que, inclusive as culturas que pretendem construir-se a partir
de bases atéias ou agnósticas, desenvolvem
sua própria religião secular, com seus atos
religiosos correspondentes, para unir e reforçar sua
cosmovisão e ethos. Não há cultura
sem religião, e não há religião
que não esteja concretizada em atos religiosos. Também
dizíamos que através da análise dos
atos religiosos (baseado em uma etnografia religiosa prévia),
podemos nos aproximar dos paradigmas,
conteúdos
existenciais densos (não discursivos) que são
transmitidos através dos próprios atos religiosos.
Em alguns casos, os antropólogos interpretativos
consideram que seu trabalho termina ao vislumbrarem alguns
destes elementos paradigmáticos. Sua intuição é que
somente aqueles que atravessam os umbrais da fé própria
de cada tradição religiosa estarão em
disposição e capacidade para captar, em sua
totalidade, o que estes paradigmas significam. Uma vez mais
ressoa o grito de batalha desta aproximação
da análise cultural: “que falem os crentes!”.
Clifford Geertz fez algumas aproximações iniciais
ao que este cruzamento da fronteira da fé poderia
significar. Em seus estudos sobre os atos religiosos dos
balineses (habitantes da ilha de Bali, na Indonésia),
acreditou estar vislumbrando alguns dos paradigmas transmitidos
por eles, a pesar de sempre ter reconhecido que, em sã consciência,
não poderia ele considerar-se um “crente”,
nem estava em condições de chegar a ser. Alguns
de seus seguidores, como os representantes principais da
corrente da antropologia dialógica, Barbara e Dennis
Tedlock, ousaram ultrapassar esta fronteira e seguiram o
processo de indução, capacitação
e consagração, como os xamãs maias (o
termo usado para este ministério, na cultura quiché, é chuchkajaw, que
significa “senhor/senhora, avô/avó”).
Seus estudos são uma aproximação muito
interessante da possibilidade de adentrar, através
da religião, em universos culturais diferentes do
nosso, destacando os acertos, erros e perigos deste processo,
com os alcances e limitações do possível
acesso a sua respectiva experiência religiosa fundacional.
O que estes estudiosos da cultura buscavam era o que poderíamos
chamar de “núcleo do núcleo” da
cultura, a essência, o refinamento de sua identidade,
localizável dentro de sua religião. Apesar de que se possa considerar a religião como
o núcleo da cultura, como uma mostra dos principais
elementos contidos em sua cosmovisão e ethos, a religião,
por sua vez, parece ter um
núcleo fundamental
constituído pelos paradigmas que veicula. Encontrarmo-nos com um novo ponto central dentro da religião
leva-nos, necessariamente, a pensar se há alguns outros
elementos que nos ajudem a entendê-lo e ver como atua,
ou seja, leva-nos perguntar sobre a possível existência
de uma estrutura de funcionamento dentro do fenômeno
religioso.
Se ficarmos somente com a perspectiva evolucionista adaptativa
através da qual os antropólogos interpretativos
descrevem o surgimento da cultura (como uma forma de transmissão
paralela, não genética, de conteúdos
necessários para a sobrevivência), tudo pareceria
determinado a partir de fora, em outras palavras, as condições
ambientais seriam as causadoras de um povo organizar de determinada
forma, explicando-se o universo de tal maneira que lhe permitisse
funcionar eficazmente neste contexto, e assim assegurar sua
sobrevivência. Em outras palavras, a necessidade de
sobrevivência frente a um ambiente hostil e com recursos
limitados ocasionaria o surgimento e o desenvolvimento de
uma forma concreta de enfrentá-lo e os mecanismos
para transmitir estes saberes (ferramentas adaptativas) para
transformá-lo em benefício do grupo. A partir
desta perspectiva, a cultura e a religião que lhe
serve de núcleo de identidade estariam determinadas
pelas necessidades de sobrevivência humana. Isto aproximaria
a postura da antropologia interpretativa, que vimos associada
a correntes como o evolucionismo, o materialismo cultural
e o materialismo dialético. O aparecimento de “religiões
seculares” em culturas que se definem como não
confessionais, atéias ou agnósticas, pareceria
fundamentar esta conclusão. E este fato empírico
parece que serviu para dar peso a uma visão materialista/determinista
do surgimento da cultura e da religião.
Porém, poderia haver uma aproximação
diferente, que fizesse referência sobretudo a culturas
que foram construídas sobre tradições
religiosas milenares, como o budismo, o judaísmo ou
o cristianismo. Seria possível pensar que a cultura
não se constrói a partir de fora, ou seja,
que não é a partir do meio ambiente que se
concretiza uma cosmovisão, ethos e religião
determinados por ele? Poderíamos nos arriscar a pensar
que o referencial primeiro, fundamental, de uma religião
não vem do meio ambiente, mas da irrupção,
dentro desse ambiente, de um princípio que se revela
como fundamental para entender tudo o que existe? Esta seria
a postura comum a todas as grandes tradições
religiosas, quer creiam em um Deus pessoal ou em uma Realidade Última
impessoal. Para aqueles que vivem dentro destes sistemas
de significado (para os “fiéis”), no
fundo de sua religião há uma experiência
de encontro com o radicalmente verdadeiro, de onde adquirem
sentido todas as coisas apreciáveis no mundo perceptível
pelos sentidos. Neste caso, a primeira coisa seria a experiência
de irrupção e encontro com este Referencial Último,
que acaba convertendo-se em clave de interpretação
(chave hermenêutica) fundamental para entender o mundo
(meio ambiente) e a forma de estar idealmente nele.
Esta afirmação é muito importante e
radical, já que supõe que a cultura não
seja produto, em última instância, do ser humano
e sua adaptação ao mundo, mas da Realidade Última
que se revela como definitiva. Isto não quer dizer
que, uma vez revelada (uma vez que se tornou transparente),
os seres humanos não possam falhar em sua busca de
construir (a partir do paradigma fundacional, este sim, autêntico
por necessidade) um sintagma (discurso religioso concretizado
em atos) que, por sua vez, se desdobre em uma forma de entender
o mundo (cosmovisão) e a forma ideal de viver nele
(ethos). Poderíamos concluir que existiram e existem
concreções (culturas-religiões) mais
ou menos afortunadas para refletir e transmitir a revelação
(paradigmas) que esta irrupção (revelação)
da Realidade Última deixou para a humanidade.
Para podermos aprofundar sobre esta intuição,
vale a pena aproximarmo-nos desta experiência de revelação
a partir de um contexto que nos é familiar, o da fé cristã.
Desta forma, nos aproximaremos da experiência de encontro
com a Realidade Última (mediada por Jesus de Nazaré e
sua mensagem central sobre a chegada, irrupção
do Reino de Deus) e o modo como pôde ter se concretizado
em uma religião e as culturas sustentadas por ela.
Idealmente, poderíamos tentar elaborar critérios
avaliativos, para ver se estas culturas-religiões
foram mais ou menos fiéis à experiência
de Realidade Última que estavam chamadas a reproduzir/encarnar
e transmitir.
2. A “experiência de
Deus”, de contato com o Real, como núcleo
de identidade da religião e, eventualmente, de toda
a cultura
Dizíamos que, assim como a cultura tem como núcleo
a religião, a religião, por sua vez, tem um
núcleo, que é a experiência de Deus,
uma irrupção da Realidade Última dentro
da consciência humana que a torna “evidente”,
como sentido último de tudo o que existe. O que significa
isto?
No fundo de nossa religião (e de
todas as religiões),
há uma experiência fundante que se viveu como encontro
com aquilo que se impôs como realidade última
e definitiva. Utilizamos o termo “impôs”,
porque a experiência de encontro com Deus é de
tal força e contundência que tudo mais se torna
relativo em sua presença, deixando claro que tudo
o que existe recebe d’Ele sua densidade ontológica,
existe graças a Ele. A análise linguística
nos leva a confirmar esta intuição. Javier
Melloni apresenta a raiz indoeuropéia sak- como
origem do termo “sagrado”. O significado deste
radical semântico é “conferir
existência”, “fazer com que algo chegue
a ser real”(1). O
sagrado é o que realmente existe, tudo aquilo que
transparecer Aquele que o sustenta. A “experiência
de Deus” não faz referência a uma vivência
isolada de uma mente doentia. A história nos mostra
que supõe uma vivência múltiplas vezes
experimentada, nas mais diversas tradições
culturais e religiosas, de encontrar-se com aquilo
(Aquele, O Existente) que, “existindo, faz com que
tudo mais exista”, “que capacita as coisas, para
que sejam reais”. Poderíamos dizer,
além disso, que faz com que as coisas sejam reais
da maneira precisa como são reais. Isto é importante.
Porque a ordem (cosmos) que transmite uma experiência
fundante (desfazendo a ilusão de um mundo “caótico”,
sem harmonia nem conserto) não é qualquer ordem,
senão aquela que se manifestou/revelou como definitiva
e normativa, desde Aquele que a mantém.
A “experiência de Deus” poderia
ser denominada mais propriamente com o termo inaciano “experiência
fundante”, já que ela funda e dá sentido à visão
da realidade que terá, a partir dela, quem a tenha
experimentado. Estas experiências fundantes são
vividas como uma “revelação”,
a irrupção de algo (Alguém) que inicialmente
não era óbvio e que logo se tornou perceptível,
inteligível, referencial último e definitivo.
Outra referência ao real/concreto da prática
religiosa é que, por sua vez, as experiências
fundantes às quais fazíamos referência implicam,
de forma geral, um sujeito concreto que as viveu, uma
pessoa que foi transformada radicalmente por este encontro
com o Definitivo. Na origem de toda religião
há uma pessoa, um ser humano como nós (o que
deixa sempre aberta a possibilidade de termos acesso à mesma
experiência fundante) e sua experiência de encontro
com o Mistério. Este encontro, por sua vez, sempre
marca definitivamente a vida de quem o experimenta. Basta
recordar as grandes figuras fundadoras das tradições
religiosas milenares, para ver que, em todas elas, apresenta-se
este padrão:
-
Fome de transcendência,
sentido e busca da verdade. A Realidade Última
atrai e seduz aqueles que sentem-se chamados a buscá-la
e encontrá-la. Podemos dizer que toma a iniciativa.
-
Experiência de Deus (fundante), que “toma” completamente
quem a experimenta. É uma experiência
mística de encontro e união com O Definitivo.
-
Visão
renovada do mundo, a partir
da clave hermenêutica captada/vivida na experiência
fundante.
Desejo de compartilhar com
todas as pessoas possíveis esta experiência
que se vivencia como positiva e humanizadora.
-
Estabelecimento
de um processo de indução, para
que os destinatários da mensagem vivam, por
sua vez, a experiência fundante.
-
Legado da
experiência e a forma de reproduzi-la ao
grupo de seguidores, que ficam encarregados de velar por
sua autenticidade.
Este pequeno esquema pode ser aplicado, como apontávamos, à maioria
das grandes religiões contemporâneas: a Buda
e ao nascimento de sua doutrina, a Abraão/Moisés
e o nascimento do judaísmo, a Jesus Cristo e o nascimento
do cristianismo, a Muhammad e o nascimento do Islã.
O mesmo poderíamos dizer de outras religiões,
igualmente antigas, porém, menos conhecidas, como
os sistemas de fé indoamericanos ou africanos.
Voltando a nossa descrição da experiência
de Deus como experiência fundante, podemos dizer que encontrar-se
com a Realidade Última significa sempre uma libertação, uma
passagem da escuridão para a luz, do caos ao cosmos,
da falta de sentido a um claro horizonte de sentido. Sem
perder o elemento do “tremendo” e transcendente
próprio do contato com o Mistério último,
do “temor e tremor” de que falam as Sagradas
Escrituras, quem vive esta experiência percebe sua
vida transformada definitivamente para melhor, através
do encontro com a Realidade Última. Liberto
da angústia de sentir-se diante de um mundo caótico,
onde tudo parece acontecer por acaso, sente que finalmente “entende” e
capta a “ordem” que subjaz em tudo o que o rodeia e
que explica até sua própria existência.
Toma consciência, de forma intuitiva e ao mesmo tempo
contundente, de que existe um “plano”, uma inteligência,
uma ordem que conduz a cadeia de fatos em direção
a um fim razoável e com sentido. Não é à toa
que as palavras que definem este princípio orientador
da realidade façam referência, nas diversas
línguas, a um mesmo
campo semântico:
ordem, lei, estrutura e a atitude de configurar-se a essa
ordem revelada. Este é o caso de palavras/conceitos
bem conhecidas por nós como Tao (ou
Dao, no misticismo naturalista chinês); Dharma (no
hinduísmo e no budismo); Torah (no
judaísmo); Reino de Deus (no cristianismo); Islã (na
religião muçulmana).
Quem vive estas experiências fundantes também
constata que, quando orienta suas decisões e ações
referindo-as a esta “ordem”, sua vida se torna
cada vez mais harmoniosa e plena. Descobrir semelhante tesouro,
uma alegria tão grande como esta, impele a compartilhá-la
com outros. Ainda mais, a “ordem” revelada, em
geral implica a corresponsabilidade pelos outros, como veremos
mais adiante.
Finalmente, nunca devemos perder de vista que a
autêntica experiência religiosa é “real”,
ou seja, perceptível/experienciável/constatável, nunca é uma idéia, um mero discurso, por
melhor articulado e plausível que este pudesse parecer.
3. Desenvolvimento da religião a partir da
experiência fundante de Deus (a religião como
mistagogia)
Dizíamos que na origem de toda religião (e
das culturas que eventualmente se concretizam a partir delas)
há uma experiência de encontrar-se com a Realidade Última
que se revela como doadora de existência e de sentido.
Para que isto seja uma realidade, e não somente fruto
da imaginação de um idealista, é necessário
que a experiência seja transmissível. Os grandes
místicos fundadores logo buscam (ou parecem convocar
com o magnetismo gerado por seu testemunho) seguidores, e
estes sentem-se atraídos por sua personalidade e talante.
Quem se encontrou com o Mistério e foi transformado
definitivamente por ele, parece irradiá-lo, transparecê-lo,
e isto atrai pessoas cuja sensibilidade esteja orientada
para esta mesma busca.
No nascimento das grandes tradições religiosas,
encontramos um período de tempo em que o fundador
busca, nem sempre com êxito, fazer com que aqueles
que se sentiram atraídos por sua forma de ser “humano” não
se contentem só com isso, mas que aceitem viver a
mesma experiência fundante que o místico fundador
viveu. Para isso, buscam, uma e outra vez, formas de poder
suscitar em seus seguidores (muitas vezes imaturos, vacilantes
e/ou confusos) a mesma vivência de encontro com o definitivamente
Real e contundente. Só esta vivência pessoal
e direta os converterá em autênticos seguidores
do “Caminho”, seguros do que fazem e capacitados,
por sua vez, a transmiti-lo a outros.
Estes processos de indução à experiência
fundante estruturam-se em um programa de didática
espiritual, que se denominou (pelos Padres da Igreja) “mistagogia”.
De forma geral, supõe um tempo de preparação
que sensibiliza o adepto para poder captar a onipresença
d’Aquele que tudo sustenta. Isto costuma supor purificar
a visão autocentrada da realidade e da própria
identidade (ou melhor, curar a cegueira que esta atitude
causa), para abrir-se a um horizonte de sentido fundamentado
em relações de reciprocidade e interdependência.
Esta temática será abordada mais amplamente
em nossa terceira palestra.
A utilização do termo “mistagogia”,
que evoca o termo mais conhecido “pedagogia”,
tem um significado profundo. Assim como o pedagogo era um
escravo cuja responsabilidade era simplesmente conduzir a
criança (paidos) ao mestre (didakos),
e nunca erigir-se em mestre ele mesmo, assim também
o processo mistagógico é chamado a conduzir
quem o vive ao encontro com o Mistério, e nunca a
suplantá-lo. O receptor da experiência fundante,
o místico fundador, recebe, por sua vez, o dom de
poder transmiti-la, assegurando-se de que a mistagogia que
viveu e quer transmitir a seus seguidores reflita as características
próprias da experiência. Uma ruptura neste processo
de indução, um passo em falso (que separe da
experiência original ou a altere), pode acabar com
a transmissão, desvirtuá-la, com graves consequências
para a religião na qual se sustenta e para a cultura
que se constrói com base nesta religião. Isto
deixaria a religião em crise, o que, por sua vez,
traria como consequência uma crise da cultura e da
sociedade.
Temos a intuição de que as crises culturais
e institucionais, como a que estamos vivendo, sobrevêm
quando as religiões que as sustentam já não
podem veicular a experiência fundante que está em
seu núcleo, à qual não podem deixar
de fazer referência. Poderíamos dizer que as
religiões são fundamentalmente mistagogias,
caminhos que ajudam seus seguidores a se encontrarem com
o Mistério, tal como se viveu na experiência
fundante encarnada na vida concreta de seus fundadores. Porém, esta cristalização, para que
se converta em religião, e não meramente em
discurso ideológico, necessita veicular a vivência
do encontro com Deus, torná-la repetível e,
volto a insistir, que seja uma vivência real e constatável.
4. Jesus de Nazaré e a “Experiência
Fundante” dos cristãos
Dentro da tradição cristã, esta experiência
fundante se associa com o encontro com um Deus pessoal, que
se revela ao ser humano como um Criador próximo, misericordioso,
compassivo e amoroso. Durante esta experiência e, de
forma ideal, depois dela e durante toda a vida, pode-se perceber
como este Deus age, assim como sua onipresença em
sua Criação, ainda que se intua que é um
Deus “sempre maior”, inabarcável, Mysterion.
Para começar, seria preciso destacar que uma das
particularidades fundamentais de nossa religião é que
sua experiência fundante básica é encontrar-se
e entrar em relação com uma pessoa: Jesus de
Nazaré. Encontrar-se com Ele, a partir de
sua experiência de vida, constitui a vivência
básica de qualquer cristão. Por sua vez, a
vida toda de Nosso Salvador é uma série de
experiências fundantes. Sendo verdadeiro Deus e verdadeiro
Homem, e mantendo sempre atuantes suas duas vontades, Cristo
se constitui em Caminho para todos os seres humanos, visto
que, como humano, viveu a que talvez tenha sido sua experiência
fundamental: a abertura ao encontro com um Deus que se manifesta
como Pai amoroso, com uma misericórdia sem limites
e que quer comunicar sua “vontade” àqueles
a quem ama. Isto Jesus viveu como homem, nesta experiência
várias vezes confirmada (em seu batismo,
tentações, vida pública, paixão,
morte e Ressurreição) e é esta
experiência que Ele quis transmitir a seus discípulos:
Deus nos ama e vale a pena colocar nossas vidas em suas mãos.
Portanto, estas vivências concretas da vida do Senhor
que nos foram transmitidas pela Sagrada Escritura são
experiências confirmadoras e complementares, que deixam
claro quem é este Pai e o que significa viver de acordo
com sua “vontade” (ser “cidadãos
do Reino”). A vontade do Pai faz referência a
uma ordem (uma forma de ser, uma atitude existencial de abertura à comunhão)
orientada para a salvação/plenificação
da Criação (que talvez seja o sentido último
do termo Reino de Deus). Quem vai descobrindo este
mistério através do encontro com o Pai, por
Cristo, no Espírito Santo, descobre a “ordem”,
o cosmos harmonioso do projeto de salvação
de Deus e começa a orientar sua vida e cada uma de
suas ações nesta direção.
Viver a partir da soberania de Deus (Reino) é reproduzir
em si mesmo as atitudes de Deus, tal como nos foi revelado
no Senhor Jesus (Cristo é Deus comunicando-se conosco “de
forma humana”, ou seja, de maneira inteligível
para nós). A Sagrada Escritura o expressa com clareza: “quem
me viu, viu o Pai” (Jo 19, 9b). Para encarnar em nossas
vidas concretas as atitudes de Cristo, devemos primeiro aprendê-las,
torná-las nossas ou, como alguns chegaram a dizer,
descobri-las no mais profundo de nosso ser, como parte do “selo
crístico” de nossa criação.
Jesus realiza
em nós o que os psicólogos
contemporâneos chamam de “modelagem”,
uma espécie de transmissão de saberes/ experiências/
atitudes (em resumo, sabedoria) que vai além da
linguagem comum e envolve toda a pessoa e suas atitudes
vitais, que são “contagiados” aos que
se aproximam dele. Quase por “osmose” se
vai incorporando a série de valores e atitudes exemplificados,
por aquele que serve de “modelo”. Nosso Salvador
experimentou, como homem, o encontro com a realidade deste
Pai próximo e compassivo, comprometido com suas
criaturas de maneira pessoal, em uma relação
cujo fundamento básico é o amor gratuito.
Jesus de Nazaré sentiu-se transformado por essa
experiência e sentiu-se chamado a ser instrumento
de transformação para outros, para que tivessem
a mesma experiência. Jesus conquistou isto com sua
presença, através da qual os que se encontravam
com Ele e eram tratados da mesma forma como Ele se sentia
tratado por seu Pai, sentiam que tinham se encontrado com
uma “Boa Notícia”. Podemos dizer que
a mistagogia de Cristo (que a comunidade cristã é chamada
a reproduzir) é uma mistagogia da presença
testemunhal, da modelagem.
Já dizíamos que o encontro com o Senhor Jesus
como Boa Notícia poderia ser considerado como a “experiência
fundante” de nossa fé, o que tradicionalmente
chamamos de kerygma que, mais que conteúdos conceituais,
deveríamos ver como uma experiência pessoal
e coletiva. Central a este kerigma é experimentar
a Deus como o “filantropo” por excelência,
o amador de toda a humanidade, o aliado dos homens. Para
resumir em uma frase evangélica: “Deus amou
tanto o mundo, que deu seu Filho único, para que
todo o que nele creia não pereça, mas tenha
a vida eterna” (Jo. 3,16). Encontrarmo-nos
com Cristo, como concretização do amor gratuito
e infinito de Deus por nós, é imprescindível
para nos aproximarmos da experiência fundante do cristianismo.
5. O Senhor Jesus e a experiência fundante
do cristianismo (seu paradigma fundamental)
Aproximemo-nos, agora com um pouco mais de detalhe, do que
pode ser esta experiência fundante da fé cristã.
Um excelente resumo da vida cristã (religião)
como mistagogia nos vem no final da segunda carta do apóstolo
Paulo aos coríntios (13,13): “A graça
do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão
do Espírito Santo estejam convosco”. Paulo
deseja para a comunidade à qual se dirige (bastante
conflitiva, por certo) que possa confirmar a vivência
de encontro com Deus sobre a qual construiu sua fé.
Temos a convicção de que Paulo se refere a
um processo mistagógico concreto, no qual a sequência
das referências (Filho, Deus [Pai], Espírito)
não é fortuita, mas descreve uma ordem concreta,
uma vivência processual. Cada uma destas “pessoas” (perdoem-me
o anacronismo) está acompanhada de uma característica/ação
que parece descrevê-la e parece ser o preâmbulo
para a seguinte: o Senhor Jesus Cristo, como graça
(conduz a) Deus (o Pai), como amor e, finalmente, (nos leva
ao) Espírito Santo, como comunhão.
A porta de entrada para nossa experiência
fundante é encontrar-se com Cristo como graça,
como gratuidade absoluta, doação incondicional,
amor oferecido sem pré-requisitos. Quem
acolhe a Cristo assim, quem baixa a guarda e se deixa amar
desta forma, pode finalmente ter acesso ao mistério
do amor infinito que tem como fonte o Pai. A incorporação
a este círculo do amor trinitário finalmente
pode ser experimentada como comunhão, comum-união,
relação de participação de
bens, que é a natureza última do amor, personificado
no Espírito Santo, Espírito de Cristo. Portanto,
volto a insistir, para o cristão, a experiência
fundante é o encontro com o Senhor, que o recebe
sem condições, mostrando-lhe a dimensão
inimaginável do amor do Pai.
Entretanto, aqui surge um problema. Não basta dizer
que o encontro com Cristo é o fundamento, a porta
de entrada para a experiência fundante da fé cristã. É preciso
que nos encontremos com o Senhor “completo”,
não somente com o que nos agrada dele e de sua mensagem. Há tantas imagens falsificadas do Senhor! Há pessoas
que se identificam com um Jesus combativo, defensor ativo
da dignidade da humanidade, mas esta mesma pessoa tem dificuldade
em aceitar um Jesus obediente à vontade do Pai, que
se deixa conduzir como cordeiro à morte. Outras pessoas
sentem-se atraídas pela misericórdia de Jesus
pelos enfermos e excluídos, mas recusam-se a imaginar
Jesus indignado, expulsando os vendedores do templo. Parece
que convivem no Senhor muitas personalidades. Haverá algum
elemento (um fio condutor) que una todas elas e que dê sentido
a todas elas? Nossa intuição é que sim,
e que este talvez seja o paradigma fundamental da experiência
cristã de Deus.
Paulo exortava as comunidades destinatárias de suas
cartas, dizendo que ele só pregava Jesus crucificado: “não
com palavras sábias, para não desvirtuar a
cruz de Cristo. Pois a pregação da cruz é uma
loucura para os que se perdem, mas para os que se salvam – para
nós – é força de Deus” (1
Cor 1, 18). Para o Apóstolo por excelência,
o Senhor Jesus nunca deixa de ser o centro de seu anúncio; é seu kerygma.
Mas, ao mesmo tempo, de todos os elementos da vida de Jesus,
Paulo parece considerar sua morte na cruz (e sua Ressurreição
dentre os mortos, como parte integral de uma única
mensagem) como a clave hermenêutica para entender quem é Jesus
e sua mensagem de salvação.
Para entender quem é o Pai e seu Reino, temos
que nos aproximar da cruz como sinal de um amor que se
entrega sem condições, até as últimas
consequências. Quem aceita viver a partir
deste despojamento da cruz recebe a promessa real da vida
definitiva. Deus se revela a si mesmo como alguém
que se entrega (que se esvazia em kénosis, despojamento).
Cristo é o dom supremo desse Deus que vem para se
entregar. Portanto, um sinal da autêntica experiência
fundante cristã é a vivência de receber
um chamado impetuoso a despojar-se, no esvaziamento/entrega
(kénosis) por amor, que o próprio Cristo
nos ensina (Fil 2,5-11). Quem se encontrou com
o Servo Sofredor de Yahveh (aquele que, por amor, carrega
todas as consequências de nossos pecados), é transformado
por este encontro, convidado a fazer-se pobre, desarmado
e livre como seu mestre, ou seja, oferenda e dom.
Esta experiência fundante da fé cristã deve
ser transmitida a través de uma concreção
de vida que necessariamente faça referência
ao exemplo do Senhor, pobre e despojado, abertura ao outro
e dom de si, como vontade última do Pai. Como
também foi dito, Cristo nos mostra um amor desarmado,
oferecido, sustentado por uma vida que transmite esta atitude “de
quem que veio para servir”. A experiência fundante
cristã pode ser adulterada de muitas formas, porém,
sem dúvida, a mais destrutiva de todas é quando
se vincula a mensagem de Cristo a qualquer forma de poder
ou de apropriação; pior ainda, quando nós,
que nos dizemos portadores da Boa Notícia, nos mostramos
insensíveis com relação à injustiça
e à exclusão, dolorosas consequências
do abuso de poder e da apropriação. Isto
sem esquecer que são dolorosas, cedo ou tarde, tanto
para aqueles que as sofrem como para quem as provoca.
Em resumo, a experiência fundante da fé cristã,
ou dito nos termos utilizados em nossa primeira palestra,
seu paradigma fundamental, é o encontro com alguém,
com Jesus de Nazaré. Dizíamos que isto implica
encontrar-se com uma pessoa, não com uma série
de idéias. Uma pessoa que se “comunica” com
o crente, transmitindo-lhe basicamente uma experiência:
o amor incondicional de Deus, encarnado na entrega que nos
faz de seu Filho. O amor de Deus por nós é tão
grande, que está disposto a despojar-se de suas prerrogativas
divinas, para converter-se em “modelo” do que
significa ser humano e, através de sua “modelagem”,
mostrar-nos o caminho para nossa plenitude. O
símbolo
fundamental deste mistério é Jesus na cruz, vida que se entrega, para converter-se em vida para outros,
e que através desse movimento kenótico, paradoxalmente
se encontra a si mesma e se vive como plenificada. Como já apontava
Paulo: a cruz não tem sentido sem a Ressurreição,
e a Ressurreição é supérflua
sem a cruz. Finalmente, aceitar a mensagem de que
Deus é um Pai que nos ama e nos entrega seu Filho
como salvador e redentor, e, portanto, viver em consequência, é o
sentido último do que chamamos de Reino de Deus.
6. Mistagogia cristã, religião e crise
da cultura
É evidente que, nesta breve palestra, procurei transmitir
somente um esboço do que considero que pode chegar
a ser um marco teórico útil para nos aproximarmos
do problema da crise da sociedade na qual vivemos (que considero
inserida na crise da cultura), destacando o papel que a religião
tem neste processo. Como esboço é simples,
mas nem por isso superficial. Busquei apresentar alguns referenciais
teóricos, para podermos nos aproximar da problemática
institucional atual (que inclui a Igreja) desde uma perspectiva
que penso que pode ser realista e, precisamente por isso,
radical. Este é o sentido de nos perguntarmos sobre
o significado de termos muito usados e pouco entendidos,
como cultura, identidade, abertura dialogal à diversidade
e tudo isto a partir do referencial fundamental do Reino.
Nossa proposta é que, mudando a perspectiva da análise
de nossa realidade contemporânea, poderíamos
incidir nela mais cristã e eficazmente. Isto significa
renunciar à atitude comum de ficarmos com a série
de sintomas objetivos da crise que todos podemos constatar,
buscando explicações em uma cultura ou sociedade “enfermas”,
descristianizadas e em conflito. Nossa proposta é que
partamos de uma análise que considere que provavelmente
na origem dessa crise cultural esteja uma crise na religião
que a sustenta, e que esta crise na religião esteja
relacionada à perda da capacidade de atuar como autêntica
mistagogia que permita o acesso à “Experiência
Fundante”, ao núcleo da identidade da religião.
As consequências são claras: ao invés
de ficarmos lamentando frente à secularização
da sociedade e a perda de valores, atacando-a ou tomando
uma atitude defensiva diante dela, os cristãos devem
rever honestamente quão fiéis foram à experiência
fundante de sua fé, como se reflete em sua vida e
obras a atitude de seu Senhor que, sendo Deus, agiu sempre “como
aquele que veio para servir”.
Esta proposta implica passarmos de uma ênfase posta
na análise social para uma ênfase posta na análise
teológica; porém, sem perder de vista que os
dados dos quais partimos têm um referencial social
e necessitam ser analisados com a epistemologia própria
desse campo do saber humano. Por isso, precisamos de uma
reflexão sobre a cultura como fenômeno social
(visão antropológica) e adentrarmos no núcleo
da cultura, a religião desde seu próprio fundamento,
a experiência de Deus (visão teológica).
A religião é chamada a concretizar sua mistagogia
em práticas, doutrina e instituições
que facilitem o “viver” de acordo com suas intuições
básicas. Podemos descrever a gênese, o crescimento,
o apogeu, o declive e o desaparecimento das instituições
religiosas a partir desta perspectiva sociológica.
Porém, dado que sua origem transcende a história
e a forma como se concretizaram e aponta para uma experiência
de irrupção do Real na esfera da experiência
humana (que descrevemos como uma experiência fundante),
necessariamente devemos incluir este referencial para “avaliar” se
tais práticas, doutrinas e instituições
estão realmente aproximando seus membros do horizonte
de sentido pretendido. Se o fazem, para aprender
com a maneira como o fazem e reforçar as fortalezas
que encontramos (se possível). Se não, ver
a quê se deve o fato de que não estejam cumprindo
o papel que lhes corresponde, sabotando o sentido da religião
e bloqueando o acesso a sua experiência fundante; em
nosso caso, o encontro com Deus, da forma como se manifestou
através da vida de Jesus Cristo, o Senhor.
Não basta fazer um diagnóstico do problema; é preciso
continuar em busca da solução. Isto supõe
repensar a religião e suas características
atuais (necessariamente vinculadas a um tempo e cultura particular),
entre as quais encontram-se as
instituições
e as práticas que as caracterizam, para adequá-las
de forma que tornem acessível e transparente a experiência
de Deus que pretendem transmitir ao homem e à mulher
concretos de hoje. Dissemos que as religiões
são construídas ao redor destas experiências
fundantes, vividas como inquestionáveis, pelo terminantemente
reais que são. Talvez a primeira origem da crise
das culturas cristãs tenha sido esquecer que em sua
origem havia uma experiência de Deus perceptível
e transmissível. Que era não só injusto,
mas basicamente errôneo pedir adesão a uma série
de referenciais doutrinais, se estes não manifestavam
sua “realidade” através do surgimento
do que Paulo chamou de “os frutos do Espírito” (Gal.
5,22-23). As pessoas foram se esquecendo de que Deus não
era uma idéia, um conceito que pudesse ser delimitado
e deduzido, mas uma experiência viva, que se impunha àqueles
que se arriscavam a colocar-se sob sua influência.
Esqueceu-se que toda autêntica teologia é filha
de uma experiência de encontro com Deus, mais que exercício
dialético. Em um sistema cultural, quando a religião
que o sustenta deixa de colocar seus membros em contato com
o que se percebe como a Realidade Última, simplesmente
deixa de funcionar e arrasta consigo os outros componentes
da estrutura cultural: a cosmovisão e o ethos.
Em nossa próxima palestra, buscaremos abordar esta
problemática a partir da especificidade da mistagogia
cristã, o diálogo intercultural e interreligioso,
e a possibilidade de compartilhar a Boa Notícia através
de fronteiras culturais.
1.- Melloni, Javier, El Uno en lo Múltiple. Aproximación a la diversidad y unidad de las religiones, Sal Terrae, Santander 2003, p. 25.
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